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19/06/2020 especial

Estado Incógnita

Entidades, instituições e governos reúnem forças para fazer frente a outra questão ameaçada pela Covid-19: a economia mundial.

Em meio a maior crise enfrentada neste século, a pandemia do novo coronavírus fez com que o mundo voltasse seus esforços exclusivamente para a saúde. Isolamentos foram decretados, fronteiras fechadas e estudos intensificados. Perplexos, indefesos e perdidos perante uma doença altamente contagiosa que a cada dia faz milhares de novos óbitos, entidades, instituições e governos reúnem forças para fazer frente a outra questão ameaçada pela Covid-19: a economia mundial.

Foi em 30 de janeiro de 2020, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) constituiu a síndrome respiratória aguda grave Covid-19 como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) – o mais alto nível de alerta da Organização, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional. Na época, havia registro de casos em 19 países, com transmissão entre humanos na China, Alemanha, Japão, Vietnã e Estados Unidos da América.



No dia 26 de fevereiro de 2020, o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Brasil. Tratava-se de um homem de 61 anos, com histórico de viagem para a Itália. Quatorze dias depois, em 11 de março de 2020, o status da doença foi elevado pela OMS, passando a ser caracterizada como uma pandemia, contabilizando 118 mil casos em 114 países e 4,2 mil óbitos no mundo. A situação alarmante e sem precedentes exigia uma resposta global coordenada e imediata.

Cada local tomou as suas medidas cautelares e Santa Catarina foi o primeiro estado brasileiro a restringir a circulação de pessoas para evitar a disseminação da doença. Em 17 de março, por meio do Decreto 515, o Governo do Estado divulgou as principais medidas que deveriam ser adotadas para auxiliar na prevenção e no combate ao novo coronavírus.

Iniciava uma nova etapa de adaptação, na qual os termos como home office, trabalho remoto e isolamento social passaram a fazer parte do vocabulário de todos, e máscaras e álcool em gel se tornaram itens obrigatórios na rotina diária.

Em 20 de março, o Ministério da Saúde reconheceu a transmissão comunitária da Covid-19 em território nacional, impossibilitando identificar a origem da contaminação. De lá para cá, os números aumentaram vertiginosamente. Conforme dados da OMS, divulgados em 29 de maio, o número de pessoas infectadas no mundo com a Covid-19 já ultrapassou 5,7 milhões, levando mais de 357 mil à morte. Depois do início do surto na China em dezembro, pico na Europa e nos Estados Unidos em março e abril, a América do Sul passou a ser considerada o novo epicentro da doença pela OMS, sendo o Brasil o segundo país com maior número de infectados no mundo, atrás apenas dos EUA. Até a semana de fechamento desta edição da revista Flash Vip, foram registrados 465.166 casos do novo coronavírus e 27.878 mortes no País, chegando ao número de 1.124 óbitos confirmados em apenas 24 horas, no dia 29 de maio.

E enquanto novas medidas são adotadas visando o achatamento da curva de contágio e poupar vidas – a maioria envolvendo mais restrições sociais para evitar a aglomeração de pessoas e, consequentemente, a proliferação da doença –, outro setor passa a ser tratado como “paciente”, a economia.

No editorial do volume 23 da Revista Brasileira de Epidemiologia da SciELO (Scientific Electronic Library Online), intitulado O que é urgente e necessário para subsidiar as políticas de enfrentamento da pandemia de Covid-19 no Brasil?, é feita uma análise sobre as imensas repercussões econômicas, sociais e psicológicas que ocorrerão decorrentes do isolamento social. “Para minimizar o impacto dessas medidas é necessária uma ampliação substancial dos gastos públicos para garantir a assistência à saúde e apoiar financeiramente as amplas parcelas mais vulneráveis da população. Ao mesmo tempo que reiteramos que as medidas drásticas de isolamento social horizontal em vigência no País são essenciais para a limitação dos efeitos da epidemia nesse momento, reconhecemos que elas não poderão perdurar por tempo indefinido. É importante salientar, entretanto, que eventuais relaxamentos dessas medidas em médio prazo podem se mostrar um desafio tão ou mais complicado que a sua própria implementação”.


Adaptação ao novo mundo

Os dias se tornaram semanas e, ao perceber que a quarentena poderia se estender ainda mais, empreendimentos buscaram se moldar à situação, uma nova realidade que parece ter chegado para ficar. Se pensávamos que o futuro era remoto – como explanamos na edição 86 da FV, com a reportagem Eu, Robô –, ele agora é o presente, nos empurrando de cabeça sem tempo para adaptação.


Todos tiveram que remodelar seus orçamentos. O verbo ‘comprar’ passou a ser menos conjugado. Gastos? Apenas com recursos essenciais. Quando não se sabe como será o dia de amanhã, fica difícil fazer planos a longo prazo. Enquanto a maior colaboração que cada um podia dar ao combate à pandemia era permanecer em casa, foi preciso encontrar outras maneiras de contribuir e prover à renda familiar.

Quem possui acesso à internet já pôde sair na frente. Entidades, instituições e iniciativas públicas e privadas passaram a disponibilizar cursos e palestras online para abastecer de conhecimento a quem quisesse e pudesse. Como os consumidores se comportarão após a retomada gradativa das atividades econômicas? Quais estratégias os empreendedores devem adotar para garantir a manutenção de seus negócios? Os reflexos da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus irão impactar por quantos meses nos negócios? Essas eram algumas dúvidas as quais se buscavam respostas, perante este cenário incerto. É difícil prever o comportamento do consumidor quando não fazemos a mínima ideia do que esperar.

No final de março, quando seu salão de beleza estava fechado pelo Decreto Estadual, em Xanxerê, Estela Romani aproveitou para fazer cursos online sobre como divulgar o negócio no Instagram, assistiu vídeos sobre novidades do setor e aprofundou seu projeto no programa Agentes Locais de Inovação (ALI). “Sem atendimento não há faturamento. Então o momento de reclusão foi a oportunidade para rever orçamentos, reduzir custos e pensar o que oferecer depois que tudo isso passar. O cliente retornará muito mais exigente, por isso atualizei as normas de condutas internas e de atendimento”, disse a empresária.

Mesmo pensando em estratégias de e-commerce para o seu ateliê, a microempreendedora Marcelle Tormen teve que mudar de estratégia para manter o seu negócio de confecção funcionando em Concórdia, e viu na demanda de máscaras de tecido um nicho de mercado. “A procura veio dos próprios clientes, nem fiz divulgação sobre esse trabalho. A única certeza que tenho é que meu negócio precisa ser atualizado, não posso continuar como era antes, preciso me reinventar diante dessa situação e utilizar cada vez mais o meio digital”, analisa a artesã.

Estela e Marcellle fazem parte de uma importante parcela da economia catarinense. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Santa Catarina tem 785.147 pequenos negócios, desses 380.472 são micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEIs), os quais são responsáveis por 91% dos empreendimentos, 57% dos empregos formais e 37% do PIB do Estado.

“A representatividade das micro e pequenas empresas na nossa economia é evidente. É dever de todos olhar para os pequenos negócios e garantir a sobrevivência deles. São as pequenas empresas que ajudarão o Estado e o País a retomar o desenvolvimento econômico quando essa crise passar. Por isso, precisamos olhar por elas agora”, afirma o diretor técnico do Sebrae/SC, Luc Pinheiro.


Procurando se encontrar

Fica difícil pensar em CNPJs quando tantos CPFs estão nos deixando. Chapecó infelizmente não ficou fora das estatísticas. Com 982 pacientes confirmados com o novo coronavírus e quatro óbitos (dados do Boletim de Informações da Prefeitura de Chapecó, divulgado em 29 de maio de 2020), o município se tornou a cidade com maior número de casos registrados em Santa Catarina, ultrapassando até mesmo a capital, Florianópolis. O comércio foi gradativamente aberto para girar a economia local², mas o período em que tudo permaneceu parado, somado à incerteza gerada pelo cenário devastador, fez com que empresas tomassem medidas cautelosas em relação ao mercado e seus funcionários.



Para observar, analisar e propor ações com base em estimativas concretas, o Sebrae/SC, a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio SC) têm acompanhado os impactos da pandemia do novo coronavírus na economia do Estado. Três edições da pesquisa já foram divulgadas, até o dia 14 de maio, registrando aumento dos índices de desemprego, queda no faturamento de todas as atividades econômicas, dificuldades no acesso ao crédito para capital de giro e o fechamento de empresas.

Os números confirmaram o que o mercado vinha sentindo e as entidades empresariais buscam alternativas para a manutenção das atividades. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Chapecó (Acic), Nelson Akimoto, afirma ser difícil prever quando tudo isso irá passar, mas que é preciso, desde já, pensar e agir para uma retomada imediata. “Precisamos de um cenário que permita a sobrevivência dos negócios, salvando um CNPJ se salva muitos CPFs. O acesso ao crédito é o ‘oxigênio’ que o mercado precisa, o ‘alimento’ é o conhecimento que descobre oportunidades na crise”, enfatiza Akimoto.

Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Chapecó, Clóvis Afonso Spohr, a pesquisa reforça a crise sentida pelo setor e agrava a preocupação dos trabalhadores. “Os números estão numa crescente negativa maior que imaginávamos. A situação está se transformando em outra pandemia, a da falta de trabalho”, analisa.

De acordo com o presidente do Centro Empresarial Chapecó (CEC), Cidnei Barozzi, essas consequências levam às preocupações pós-Covid-19. “Este é um momento de enfrentamento muito especial quanto à preservação da saúde, mas paralelamente a isso precisamos também nos preocupar sobre o que será feito depois de debelada a pandemia. Daí, ao mesmo tempo em que tratamos convenientemente a saúde, precisamos prever o que fazer para preservar emprego e renda”, avalia.

Segundo o presidente do Sindicato do Comércio da Região de Chapecó (Sicom), Ricardo Urbancic, essa situação demorará a ser revertida, pois, mesmo após a pandemia ser controlada, será um longo tempo para a reabertura de empresas, o reestabelecimento dos negócios e a possível recontratação de funcionários. “A oferta de crédito deve ocorrer com juros decentes para superar este momento difícil sem comprometer as empresas num futuro próximo. É impraticável a taxa Selic a 3% ao ano e juros para as empresas a 0,89% ao mês. O Governo tem que fazer chegar aos empresários linhas de crédito muito próximas à Selic e com período de carência para iniciar os pagamentos de, no mínimo, seis meses”, argumenta.

Consumo contido e adaptado

Quando as pessoas mudam seus hábitos de consumo – especialmente em momentos incertos – elas tendem a se apegar à marcas que conhecem e confiam, aponta a empresa de ciência comportamental Innovation Bubble. Por isso, investir na comunicação do seu negócio e se conectar com os clientes emocionalmente se tornou mais importante do que nunca.

Embora a crise tenha tornado o público mais cauteloso em relação aos seus gastos – uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Industria (CNI) sobre os hábitos de consumo dos brasileiros pós-pandemia aponta que 77% dos entrevistados vão rever suas posturas no futuro – outro nicho se fortaleceu, o digital. De acordo com o estudo “Novos hábitos digitais em tempos de Covid-19”, realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) em parceria com a Toluna, a adaptação das empresas para vendas online foi essencial para mantê-las em operação. O levantamento mostra que 61% dos consumidores que compraram online durante a quarentena aumentaram o volume de compras remoto devido ao isolamento social. Em 46% dos casos, esse crescimento foi superior a 50%. Alimentos e bebidas para consumo imediato por delivery se destacou, com adesão de 79% dos entrevistados.


Bússola descompassada

Rapidamente, as Américas passaram de região menos afetada, em termos de mercado de trabalho, para a mais abalada. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o continente americano será a maior vítima mundial dos cerca de 305 milhões de empregos perdidos durante a pandemia de Covid-19, entre abril e junho de 2020.

Porém, conforme o número de infectados e óbitos crescem, também aumentam as restrições. A ordem é clara: fiquem em casa.

Seja por motivos econômicos, políticos ou ideológicos, essa mesma recomendação não surte tanto efeito aqui no Brasil, onde pessoas continuam a se aglomerar nas ruas e estabelecimentos, ignorando o distanciamento social, e fazendo o uso incorreto das máscaras. “Nós estamos vivendo um período de anormalidade, uma verdadeira guerra contra a Covid-19. Por isso, a sensibilização e as atitudes das pessoas é que vão nos dar a normalidade para a nossa vida e a retomada econômica o mais rápido possível”, disse o Prefeito de Chapecó, Luciano Buligon.

O apelo de Buligon contempla as duas frentes que estão em perigo: a saúde e a economia. Pois havendo um colapso no sistema de saúde, como lidar com as perdas inestimáveis que também irão agravar o mercado de trabalho? A saúde é importante para o trabalho, pois sem ela o trabalhador não exerce a sua atividade, sem atividade não há renda, e sem renda, não há consumo. Portanto, para o andamento saudável da economia, é necessário, também, uma população saudável.

Enquanto a discussão paira entre cuidar da saúde ou da economia, é preciso ter em mente que o problema econômico é a pandemia e não o governo. A economia enfrentará dificuldades, mesmo que os governos liberem a retomada total das atividades. Isso acontece porque, com o cenário de incerteza e ampliação do número de infectados e mortes pela Covid-19, as pessoas não irão consumir mais do que o essencial. Ainda, se houver o colapso do sistema de saúde, teremos uma perda significativa da força de trabalho, o pânico aumentará e, a exemplo de outros países, haverá necessidade de um novo lockdown, desta vez por um período mais longo. Neste caso, o prejuízo econômico será ainda maior”, reflete a professora do curso de Ciências Econômicas da Unochapecó, Cássia Ternus. Mas, então, o Governo não tem nada a ver com isso? “Tem e não pode ser omisso. As estratégias governamentais para lidar com a situação serão decisivas para recuperação econômica, a proteção social deverá ser mais efetiva e precisará ser ampliada”, conclui.

Com tudo isso fica difícil tomar um posicionamento unilateral, pois um setor não pode se sobrepor em detrimento do outro. As informações vêm em enxurradas, a cada instante com algo novo e, enquanto isso, vamos todos nos tornando estatísticas. E ainda fica uma questão no ar: É possível salvar a economia sem salvar as pessoas ou então salvar as pessoas sem salvar a economia?

Confira também na revista Flash Vip.


Dados dos infográficos: 3ª edição da pesquisa Impactos da Pandemia na Economia em SC (14/05/2020) Sebrae/SC, Fiesc e Fecomércio SC

AUTORA

Carol Bonamigo

Jornalista, especialista em Cinema e Realização Audiovisual, viciada em cultura pop e enófila de carteirinha.
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