Home > especial > Eu, Robô
30/03/2020 especial

Eu, Robô

Há tempos refletimos qual será o futuro do mercado de trabalho na era da automação, será que os robôs vão roubar o seu emprego?

O bioquímico e escritor Isaac Asimov (1920–1992), um dos precursores do pensamento da robótica e inteligência artificial (I.A.), em sua obra que inspira o título dessa reportagem, já previa muitas das tecnologias atuais e, inclusive, nos apresentava um código de ética para evitar conflitos entre as máquinas e os seres humanos. E há tempos refletimos qual será o futuro do mercado de trabalho na era da automação.

Apesar do conto de ficção científica ter sido publicado em 1950, não poderia ser mais atual, e foi inclusive base para diversos outros trabalhos do gênero, tanto na literatura quanto no cinema. Embora nas páginas e telas essas histórias recebam um tratamento muito mais apocalíptico, geralmente culminando na revolução das máquinas contra a supremacia humana, que marcha rumo a sua iminente extinção, a realidade caminha de modo diferente, pelo menos no quesito da I.A.

Mesmo assim, não se pode negar a contribuição das obras de Asimov, também, para a tecnologia de fato. Discussões pertinentes na atualidade como automação e I.A. permeiam a sociedade, a ponto de temermos, inclusive, perdermos os nossos postos de trabalho para as incansáveis máquinas.

Vivemos hoje, um momento de intenso avanço tecnológico, no qual as mudanças acontecem e se perpetuam rapidamente. O dito analógico parecerá um conto longínquo para as gerações futuras, que irão crescer com o mundo na palma da mão, a um clique de distância. E isso afeta a maneira que desenvolvemos e consumimos qualquer produto. Para muitos estudiosos, estamos diante de uma nova Revolução Industrial (a quarta, para ser mais exata), e precisamos nos adaptar a esse caminho sem volta.

Para o coordenador do curso de Ciências da Computação da Universidade Federal da Fronteira Sul — UFFS e doutor em Sistemas de Tecnologia, Fernando Bevilacqua, a sensação alarmante dessas mudanças se deve à velocidade com que as informações chegam até nós. Mas o professor afirma: não devemos nos apavorar. “Temos a visão que a tecnologia está tomando conta de tudo, mas ela sempre tomou muitas frentes na humanidade. Era inconcebível imaginar as carroças sem cavalos, no início do século XVIII, hoje já pensamos em carros autônomos. É uma troca de fases e agora presenciamos avanços tecnológicos intrincados em todos os setores da sociedade. Estamos em uma escala tão grande que é inadmissível não necessitarmos de máquinas ou softwares para resolver os problemas antes inexistentes. Precisamos produzir comida, não mais para mi- lhões, mas para bilhões de pessoas. Seria ingênuo achar que apenas um grupo de pessoas — ou só pessoas — irá fazer isso”, reflete Fernando.

Automação dos serviços

Às vezes as mudanças são sutis, gradativamente naturais, e nem percebemos o quanto o mundo já está automatizado. Máquinas substituem trabalhos domésticos mais pesados. Para lavar a roupa e a louça ou fazer café, basta apertar um botão, e tem até robô que aspira o chão para nós, mas ele (ainda) não nos responde nem atua como uma governanta em nossos lares, como a Rosie — idealizada por William Hanna e Joseph Barbera, no desenho animado Os Jetsons, da década de 1960.

Ou seja, não está distante e tampouco diz respeito apenas a quem trabalha diretamente com tecnologia. Se nas nossas casas já temos máquinas substituindo os serviços antes realizados por humanos, imagine a proporção que isso chega nas indústrias. A questão é que nem tudo é tão palpável, como máquinas e robôs, mas sistemas e softwares com capacidade de analisar e armazenar dados com uma precisão e velocidade impossíveis ao ser humano.

“A tecnologia é uma ferramenta muito poderosa, presente em todas as áreas para desonerar o trabalho de uma pessoa, para ela gastar menos tempo para chegar em um resultado ainda melhor. Isso vem também diminuir os custos da empresa, porque uma máquina irá fazer o serviço de várias pessoas, com uma margem de erro menor. Então não podemos acreditar que os postos de trabalho irão permanecer estáticos perante isso”, analisa Fernando.


E ele está certo. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentou uma estimativa de quais ocupações correm mais ou menos riscos com o crescente desenvolvimento tecnológico. Segundo a pesquisa Na era das máquinas, o emprego é de quem? Estimação da probabilidade de automação de ocupações no Brasil, 35 milhões de trabalhadores formais podem perder seus empregos para a automação até 2050. De acordo com o documento, as áreas com menos risco de serem afetadas são as que envolvem empreendedorismo, criatividade, análise, tomada de decisões estratégicas, cuidado humano e trabalho em equipe, além das associadas a valores humanos como empatia (assistentes sociais), cuidado (babás) e interpretação subjetiva (críticos de artes, por exemplo).

A pesquisa utiliza dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) — painel que cobre 97% dos trabalhadores formais no Brasil entre 1986 e 2017 e que tem por objetivo subsidiar políticas públicas do mercado de trabalho no País. A RAIS não cobre os trabalhadores informais, grupo que representa entre 39% e 41% da população ocupada do Brasil, conforme estimativas do Ipea para o período 2017–2018.

Um outro diagnóstico do Instituto (o 61º Boletim Radar — Tecnologia, Produção e Comércio Exterior) levou em consideração apenas as tecnologias já consolidadas e passíveis de implantação, do ponto de vista regulatório, num prazo de até cinco anos no cenário brasileiro, e previu que 56% das ocupações de emprego formal no País deverão ser afetadas pelo processo de automação, podendo sofrer eventuais ameaças de extinção.

“Não conseguimos mais imaginar a sociedade moderna sem tecnologia e temos medo dela, pois não a conhecemos. O que precisamos agora é letrar as pessoas em termos tecnológicos, assim como alfabetizamos para a leitura e a escrita. E, aos poucos, isso tem entrado no currículo escolar”, salienta Fernando.

Em proporções mundiais, um relatório publicado pelo McKinsley Global Institute em 2017 analisou que cerca de 60% dos postos de trabalho disponíveis atualmente são passíveis de automação, resultando em 10 milhões de funções beirando a extinção até 2030. O texto aponta o papel das políticas sociais como medidas protetivas para colaborar que as mudanças de paradigma nos meios de produção — que contribuem para gerar desemprego e acentuam as desigualdades — sejam menos traumáticas para a sociedade.

Durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de janeiro de 2020, o secretário-geral António Guterres afirmou, em seu discurso, que será preciso agir em várias frentes para levar luz ao lado sombrio do mundo digital, pois a automação deslocará dezenas de milhões de empregos na próxima década. A recomendação do chefe da ONU foi redesenhar os sistemas educacionais para lidar com essa realidade, ensinando às pessoas como aprender durante toda a vida. Mas para isso, é necessário lembrar que, neste período transitório de adaptação, uma pequena parcela da população tem acesso às formas de profissionalização e as diferenças culturais, econômicas e sociais são discrepantes.

Novas demandas, novos trabalhos

Pensando em resolver um problema encontrado na sua área, a engenheira de alimentos Caroline Dallacorte iniciou, com seu sócio, a PackID — uma startup de prestação de serviços em tecnologia, que trabalha com o monitoramento de temperatura e umidade em tempo real, com foco em evitar perdas na cadeia de distribuição de produtos perecíveis. “Estamos em um polo agroindustrial, portanto estratégico para isso. Atendemos desde indústrias, transporte, centro de distribuição a pontos de venda final, monitorando e entregando informação inteligente ao nosso cliente, para que tome ações e consiga reduzir perdas”, explica a empreendedora, que também é mestre e doutoranda em Tecnologia e Gestão da Inovação.

A empresa, premiada internacionalmente, tem como foco reduzir desperdícios, otimizar a produção de alimentos, trazer qualidade e segurança para o consumidor e, principalmente, automatizar os processos dentro das indústrias. “Não tem porquê ter um funcionário andando pela fábrica, anotando as temperaturas dos termômetros em um papel para, depois, digitar isso no computador. Um sistema irá fazer isso mais rápido e de maneira mais eficiente, minimizando erros, e deixando que essa pessoa exerça outra função. Em alguns setores, o fator humano é algo muito complicado. É possível burlar também intencionalmente e, dependendo da área, isso pode ser fatal”, opina Caroline.

Essas mudanças gradativas não devem ser temidas como um futuro assombroso, mas abraçadas como o presente (literal e figurativo) que são. Assim como nos saltos industriais anteriores, alguns ofícios ficarão obsoletos e outros surgirão. “É preciso sair um pouco da zona de conforto e buscar qualificação. Não vejo um futuro no mercado de trabalho sem capacitação. Cada vez mais teremos que lidar com dados, não necessariamente dentro da área de TI, mas será preciso saber interpretar um dado e transformá-lo em informação. Essa é uma habilidade que muitas profissões irão exigir. As pessoas não podem ter medo do futuro, mas devem buscar se antecipar a essas situações que são iminentes”, afirma.

Conectividade mundial

A migração para a realidade da Indústria 4.0 não vai levar muito tempo, ela já está aqui. Conforme o Ministério da Indústria, Comércio e Serviços, as empresas devem perseguir uma estratégia dual, na qual se muda o presente e se constrói o futuro. E com a conectividade, não precisamos pensar dentro da caixa, atrelados apenas a uma cidade ou região, muito pelo contrário.

Foi assim que o desenvolvedor de software Rodrigo Cavichioli passou a fazer parte de uma empresa de São Francisco, EUA. De Chapecó, o growth engineer (do inglês, engenheiro de crescimento) tem contato com clientes de diversos locais, para apresentar soluções tecnológicas. “Por trabalhar com várias empresas do mundo, percebo que outras áreas estão também migrando para escritórios remotos, overseas (no exterior), com horários diferentes, alinhando as expectativas dentro das metas estabelecidas. E o perfil da equipe desejada determinará quais profissionais serão contratados para atingir os objetivos de cada empresa”, explana.

Existem tecnologias para todos os segmentos, desde jurídico, saúde, educação, até o varejo. Portanto, a atualização para aprender a utilizar essas ferramentas, ou pelo menos entendê-las e desmistificá-las, se torna tão essencial. E embora a inteligência artificial seja indicada de maneira premonitória como a vilã para os postos de emprego, devemos aprender a coexistir. “Empresas de software, por exemplo, trabalham com pessoas de todas as áreas, nem que seja como consultores. Eu mesmo, tenho robôs que me ajudam a desenvolver softwares, mesmo assim, eles não deixam de precisar de um programador para desenvolvê-los. Já a I.A. não diz respeito apenas ao trabalho mecânico, laboral e físico que será executado, mas o intelectual também. Esse café que estamos tomando, por exemplo, seu preço é a culminação de diversas decisões que, provavelmente, começaram com um algoritmo de inteligência artificial”, exemplifica o desenvolvedor.

Pensando nessa balança comercial, quando falamos em tecnologia, o Brasil ainda é tido como mão de obra barata, na visão fundamentada de Rodrigo. E será apenas com investimento em pesquisa e educação que a situação poderá ser revertida ao nosso favor. “Para começarmos a dar as cartas, precisamos de investimento pesado em educação, profissionalização, pesquisa e ciência, não só formar a pessoa para ela desempenhar uma função. Porque se ela é formada apenas para executar, a partir do momento que fizerem um robô com a mesma capacidade, ela não consegue mais trabalho. Se somos educados a aprender, desenvolver e criar soluções novas, aí não teremos mais esse medo”, avalia. Por isso, é preciso educar os seres humanos, não treiná-los. Ensiná-los a pensar por si só, porque isso o computador não consegue fazer.




Para conferir a matéria na Revista Flash Vip, clique aqui.

AUTORA

Carol Bonamigo

Jornalista, especialista em Cinema e Realização Audiovisual, viciada em cultura pop e enófila de carteirinha.
LEIA TAMBÉM