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04/07/2020 comportamento

Um novo normal

A pandemia do novo coronavírus mostrou que o home office pode ser o futuro de muitas profissões. Porém, nem todos podem trabalhar remotamente.

Assim como muitas pessoas, o dia de Odete Terezinha Panho começa cedo. Às 6h30 da manhã, o sol ainda é tímido e o movimento nas ruas também, mas a manicure toma seu café e já se prepara para atravessar o pátio de sua casa em direção ao espaço que reserva para atender suas clientes. Lá, a manicure que costumava receber em média cinco ou seis pessoas por dia, hoje percebe uma realidade diferente. Sua profissão é uma das que exigem contato físico e não podem ser realizadas de forma remota. Após meses sem trabalhar, ela é uma das muitas pessoas que enfrentam um novo normal que, provavelmente, continuará se transformando no futuro.

Em Santa Catarina, uma portaria em vigor desde o dia 6 de abril, permitiu que Odete e diversos outros profissionais liberais e autônomos, voltassem ao trabalho. Para isso, é preciso cumprir uma série de regras, como higienizar as mãos e os ambientes, realizar atendimentos individuais e fazer o uso de máscaras e aventais descartáveis. No entanto, a rotina não voltou a ser como antes. “No ano passado, quebrei a tíbia em um acidente dentro de casa. Eu deveria ter voltado a trabalhar em maio, mas não tinha terminado meu tratamento porque, devido a pandemia, não pude mais fazer fisioterapia. Então voltar foi difícil, tanto que retornei, mas entre aspas. Estou atendendo somente quando as clientes marcam e são poucas as pessoas procurando. Agora, atendo cinco clientes por semana”, explica Odete.


Se para a manicure o período é de pouca procura, para outros trabalhadores que atuam de modo presencial, em especial no setor alimentício, a realidade é bem diferente. Com grande parte dos bares e restaurantes fechados ou atendendo com capacidade reduzida, o delivery se tornou a melhor opção para milhares de pessoas. Neste caso, mesmo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) declarando que não há evidências que indiquem a transmissão do vírus por alimentos, a prevenção é fundamental. Por isso, além de adotarem o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), muitos entregadores têm investido na capacitação. Esse é o caso do motoboy do aplicativo Amo Ofertas, Rosangelo Aparecido Neves, que participou do workshop online “Boas práticas para um delivery seguro”.

A iniciativa é do Sebrae/SC, da Prefeitura de Chapecó, do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (SIHRBASC) e do Chapecó Convention & Visitors Bureau, e busca reforçar as boas práticas na área de produção, armazenagem e transporte de alimentos. Algo que, na visão de Rosangelo, é importante para preservar a própria segurança, bem como a de quem entrar em contato com ele. “Os entregadores estão prestando um excelente serviço para a sociedade e estão na linha de frente, se expondo aos riscos diariamente, para atender bem seus clientes. Assim, com essas informações, poderão se cuidar corretamente e zelar pelos seus familiares”, enfatiza.

Porém, não é apenas quem manuseia alimentos que deve conhecer e se adequar às normas técnicas que regulam tudo ao nosso redor. Para o gerente regional do Sebrae/SC no Oeste, Enio Albérto Parmeggiani, isso é essencial em todas as profissões. “Não adianta você produzir algo que não garanta resultado. Esse trabalho, esse produto ser bem feito não é mais uma questão de diferencial, é uma exigência básica. Estamos sendo ameaçados pela pandemia, o que nos leva a uma reflexão muito profunda de procedimentos, atos e processos que desenvolvemos no nosso dia a dia, seja em um escritório de contabilidade, numa operação com papel, até em um processo mais complexo na produção de alimentos ou na área da saúde”.

Outro aspecto importante das relações de trabalho, que já era discutido antes mesmo do surgimento deste novo coronavírus, é a tecnologia. Não são novas as preocupações a respeito do papel humano em um mundo cada vez mais dominado por máquinas. Em muitos casos, computadores e softwares que possibilitam reuniões pela internet mostraram que o home office é uma alternativa às incontáveis horas gastas no trânsito e ao contato presencial diário. Porém, como aliar a tecnologia à serviços e processos que não podem ser realizados com um computador?


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De acordo com Enio, o processo de automação é fundamental para elevar a competitividade em algumas áreas, mas o principal, é a capacitação. “O ser humano não será substituído. Quem se propor a fazer os serviços de manicure ou pedicure, por exemplo, terá que ter as boas técnicas, as boas práticas para fazer isso. Eu percebo que, apesar de em alguns momentos as pessoas poderem ser substituídas por processos de automação numa linha de produção, vai existir a necessidade da participação do ser humano e ele tem que estar preparado para isso. Mais do que nunca, se ele não estiver preparado, de nada vai adiantar o processo de automação”, conclui.

No mundo pós-pandemia, os seres humanos devem continuar aprendendo a cooperar com máquinas, programas e sistemas tecnológicos. Tudo pode mudar ou as transformações podem ser sutis, ainda não sabemos. Porém, o futuro será um pouco mais limpo e cuidadoso, ao menos para a manicure Odete. "O normal vai ser sempre usar a máscara, álcool gel, cuidar mais da higiene. Para mim, esse normal nunca vai sair da vida das pessoas, independente de ter vírus ou não”, finaliza.


*Matéria de Ana Vertuoso, estagiária de jornalismo da FV.

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