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18/12/2020 especial

Voo Solo

Um olhar sobre as mulheres que, por circunstância ou opção, traçaram o caminho da monoparentalidade.

Aos 24 anos e casada há quatro, a moradora de Chapecó Carolina Meneguzzo não imaginava que criaria seu filho sozinha. Mesmo com a gravidez não planejada, não passou pela sua cabeça que a maior bênção da sua vida seria vista de outra forma pelo seu marido. A falta de interesse e apoio durante a gestação se intensificou após o nascimento de Samuel e, depois de um ano e três meses, o casamento chegou ao fim. Com a separação – legal, emocional e geográfica – o contato passou de distante a nulo, e Carolina tentou por anos compensar essa ausência. “Temos o nosso sentimento de amor de mãe e ainda queremos suprir o que falta, multiplicando esse amor. Então fazia a minha parte de mãe e queria também fazer o que achava ser a parte de pai. Sei que não é igual, mas queria minimizar essa falta”, conta. 

A realidade de Carolina reflete a de outras 11,5 milhões de mulheres brasileiras, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018. A criação monoparental é comum, recorrente e geralmente atribuída à mulher – apenas 3,6% desses arranjos familiares são compostos por homens

Se criar uma criança já é uma tarefa árdua para dois, imagine quando essa responsabilidade recai sobre apenas um. A maternidade solo é carregada de estigma e poder contar com uma rede de apoio é fundamental. “A parte mais difícil não é o sustento – para isso dá-se um jeito, um doa uma roupa, outro ajuda nas compras –, mas o educar é o mais complicado. Desenvolver caráter, ensinar a ter responsabilidade e limites, ainda mais quando estamos sozinhas. Sempre estudei e trabalhei, então a minha mãe ajudava a cuidar. O tempo que tinha para ficar junto e dar carinho, era dividido com repreensões de educação. Então é difícil dosar. Não tem como passar o tempo todo brigando ou só afagando”, recorda a bacharel em Contabilidade. 

Não bastasse a logística do dia a dia, foi preciso vencer seus próprios traumas emocionais para não depositar uma carga desnecessária na criança. Carolina conta que, por cerca de três anos, Samuel guardou em uma caixa todas as homenagens feitas na escola em datas especiais, como Dia dos Pais, para entregar ao pai quando viesse vê-lo. O dia não chegou e, aos 10 anos, a caixa foi destruída.

“Nunca falei mal do pai a ele, sempre deixei a porta aberta caso ele quisesse um relacionamento com o filho e também não quero que o Samuel carregue qualquer sentimento de rejeição. Uma vez ele me perguntou se o pai foi embora por causa dele, mas expliquei que o problema foi entre nós dois, enquanto casal. Tento privá-lo da dor, mas não adianta. E a frustração faz parte da formação do discernimento”. 

A ausência foi tamanha que ela teve que acionar as vias judiciais para conseguir receber a pensão alimentícia para o filho, após anos sem o envolvimento sequer financeiro do ex-marido. Hoje, Samuel tem 15 anos, e aprendeu a lidar com a abstenção paterna ressignificando suas outras referências masculinas. O avô e os tios tiveram um papel importante no seu crescimento, mas é a mãe a quem ele recorre quando necessário e é ela que ele vê como sua rocha. “Ele diz que não precisa se preocupar comigo porque eu ‘sei me virar’. Fico honrada de ele me ver dessa forma, como uma mulher forte, mas nunca me senti uma heroína por criar um filho sozinha, até porque é a minha função e responsabilidade de mãe. Não tem como colocar em palavras. É como se a sua vida não fosse mais sua, mas estivesse em outra pessoa. Não consigo nem imaginar o que seria sem ele. Mudou minha forma de pensar, de agir, meus sonhos, minha realidade, é hoje a minha razão de existir”, afirma.


Elas não são super-heroínas, elas são mães

Pendurada a capa e despida de seus super poderes, por trás de toda super-mãe tem uma série de responsabilidades mal divididas. E, querendo ou não, em uma sociedade ainda impregnada pelo patriarcado, existem pesos e medidas divergentes no que diz respeito às atribuições e expectativas do papel da mulher. 

O preconceito sempre foi constante para a chapecoense Sandriellen Durante. A auxiliar administrativo de 26 anos é mãe de Isabella, de cinco, e Luísa de um ano e nove meses, de relacionamentos distintos, fator que carrega uma dose extra de julgamento. Sandi, como é chamada, diz conhecer as duas faces da moeda com os pais de suas filhas. De um lado, uma separação amigável resultou em amizade, presença e companheirismo, do outro, um término conturbado derivou mágoas, cobrança e negligência. 

A segunda gravidez teve complicações agravadas pelo estresse emocional e o namoro terminou antes do nascimento de Luísa. O desgaste acarretou em uma depressão pós-parto, a qual Sandi conseguiu superar com acompanhamento psicológico, a ajuda da mãe, do ex-companheiro, mas, principalmente, pelo amor às suas filhas.

“Elas precisavam de mim por inteiro, então me fiz forte por elas. Sinto bastante julgamento dos outros, especialmente de outras mulheres. É um mundo muito machista, ninguém para e pensa que tive um relacionamento com esses dois homens, uma história. As pessoas pensam que se a mulher engravidou, a ‘culpa’ foi exclusivamente dela e a responsabilidade também é inteiramente dela”, desabafa.

Apesar das mães dedicarem suas vidas aos seus filhos, a maternidade não é a única característica que as define. E a frase “com quem você deixou seu filho?”, que toda mãe solo já escutou, seja na fila do supermercado ou da balada, vem com uma dose de reprovação. “As mulheres se anulam pelo julgamento da sociedade, mas não podemos parar de viver por medo do que os outros pensam. Hoje, estou retomando a minha vida. Se saio, é quando ambas estão com os pais delas, não com pessoas estranhas. E por que não posso ir? Elas estão bem cuidadas, pelos pais, e eu também tenho direito de ter a minha vida, assim como eles”, indaga Sandi. 

Quando falamos em mães solteiras trazemos um estigma de que a maternidade está ligada ao estado civil da mulher. Desta forma, o termo “mãe solo” vem sendo usado há anos para designar as mulheres que, por opção ou circunstância, alçam essa jornada de forma autônoma.

“É importante entender que você não precisa de terceiros para ser feliz e fazer o melhor pelo seu filho. Vejo muitas mulheres que se submetem a estar em um relacionamento abusivo ou não se separar ‘pensando na criança’, jogando esse peso ruim em cima dela. Preze sempre pela sua saúde mental, só assim você será feliz e poderá fazer o seu filho feliz. Você não tem que aceitar migalha de ninguém. E as minhas filhas têm que crescer sabendo que elas podem ser elas mesmas”, pontua.


Sobre direitos e deveres 

Independente de como a criança foi concebida e da natureza do relacionamento dos pais, ambos têm direitos e deveres para com esse filho. Conforme explica o advogado Felipe Augusto Boza de Souza, a Legislação Brasileira defende todos os indivíduos desde a sua concepção, e é obrigação dos pais garantir uma vida digna aos seus filhos. “Com a paternidade assumida, tem-se direito à pensão alimentícia – que não se resume a alimentação, mas todas as necessidades da criança, incluindo lazer e educação. Para estipulação do valor são levadas em consideração as variáveis ‘necessidade, possibilidade e proporcionalidade’”, orienta. 

Os filhos têm direito a receber a pensão até os 18 anos, ou até os 24 em casos de ingressar no ensino superior. Na sua experiência profissional, Felipe já lidou com casos amigáveis e outros hostis, mas afirma que, na maioria das vezes, a responsabilidade recai sobre a mãe. “Existe um preconceito e senso comum que a mulher vai ‘viver da pensão’, quando na verdade é para que a criança tenha conforto e condição de vida, não de sobrevivência. Neste sentido, o nosso sistema funciona. Se a pensão não é paga, a pessoa pode ir presa, de 30 a 90 dias. Não importa se foi uma noite ou uma vida, ambos são responsáveis, e se não vai contribuir com a criação afetiva, que pelo menos seja com o aporte financeiro”, afirma o advogado. 

O profissional lembra que, assim como a obrigação, os pais também têm direito a acompanhar o crescimento dos filhos, com visitas acordadas ou guarda compartilhada. “Recomendo ter acompanhamento psicológico, para que a mãe possa se curar de algumas feridas e a criança consiga assimilar a dinâmica familiar”. 



Rede de apoio

Todos nós temos questões emocionais a serem trabalhadas internamente. No caso das mulheres, há uma cobrança muito grande nas questões ligadas à maternidade e tudo que diz respeito aos filhos. Conforme a terapeuta familiar sistêmica e doutoranda em Psicologia Clínica Karine Schwaab Brustolin, historicamente a mulher tinha o papel de cuidadora, enquanto o homem era o provedor da família. Hoje, mesmo os papéis sendo desmistificados e desconstruídos, os padrões tendem a se repetir. “Às vezes, a mulher, no seu inconsciente, acha que tem que dar conta de tudo sozinha. Que ela precisa cuidar, dar banho, alimentar, vestir. Quando essa mãe sofre, ela precisa ter uma rede de apoio, para ela não ser só julgada, mas amparada, para que esteja bem para cuidar e proteger o seu filho”, afirma a psicóloga. 

A famosa “família comercial de margarina” é só um exemplo de como a representação também acaba tendo a sua parcela de contribuição para a perpetuação dos padrões sociais. Na visão de Karine, deveríamos ter evoluído neste sentido, pelo menos na área da educação, para incluir as diversas composições familiares. “É uma necessidade do ser humano buscar as suas origens e é preciso ter empatia. Claro que os pais gostam de ver seus filhos fazendo homenagem na escola nas datas comemorativas, mas não pensamos nas crianças que não os têm, que para elas pode ser o pior dia do ano”, pondera. 

Para Karine, a mulher precisa sair da posição de vitimização, que muitas vezes não foi colocada por ela, mas pela sociedade, que julga ao mesmo tempo que a vitimiza. “Ao invés dessa mulher olhar só para as dificuldades – que sim, são imensas –, que possa depois ver seu filho crescer bem, reconhecer a sua força, que ela conseguiu trabalhar e prover para o seu filho sozinha e que ela deu o seu melhor”. 


Diferente de Carolina e Sandi, a aposentada Maria dos Anjos Alcântara de Moraes planejou por um bom tempo o início da sua família e em nenhum momento cogitou uma segunda figura ao seu lado. Quando a mineira radicada em São Paulo comprou seu apartamento e conquistou a tão sonhada independência financeira, enviou seus documentos a vários estados para cadastrar na fila de adoção. Não demorou muito para receber a ligação do Fórum dizendo que uma menina de dois anos a esperava. Foi amor e conexão à primeira vista. “Ela veio só com a roupinha do corpo, chegou e no dia seguinte já me chamava de mãe. Teve quem disse que eu poderia ter ‘feito um filho’, a ‘produção independente’, como chamam, mas eu sempre disse que não. Por que vou fazer mais um se tem tanta criança precisando de carinho e atenção?”, questiona a mãe de Thamiris. O apoio e a aceitação da família e dos amigos foram essenciais, não que Maria dos Anjos se preocupasse muito com a opinião alheia.

Quanto ao seu status civil, diz nunca ter sentido a necessidade de um homem ao seu lado. “As pessoas até perguntam, tanto para mim quanto para ela, e ela sempre diz que eu sou pai e mãe. Penso que tudo é alicerce, é criação. Você não precisa de ninguém para ter um  filho. Você é amor o sufi ciente. Basta querer, não precisa esperar por ninguém”, aconselha.  

Thamiris hoje é pedagoga, tem 28 anos e consegue analisar como a ausência da figura paterna impactou a sua vida. “Não que a pessoa cresça de maneira debilitada, mas na questão da autoestima e segurança, como se baseiam seus próximos relacionamentos, um pai pode fazer falta. Mas não qualquer pai. Alguém carinhoso, presente, que exerça a sua função paterna de maneira digna, mostra também para uma menina como ela deve ser tratada. Talvez eu seria mais segura quanto a isso. Mas conforme vamos crescendo e amadurecendo, nós conseguimos preencher certos questionamentos”, opina. 

Para ela, ter sido adotada já criou uma “casca” que a fez valorizar a sua mãe de uma outra forma. “Quando falo que fui adotada e a minha mãe me criou sozinha, a forma que as pessoas reagem é como se fosse algo triste, algo ruim, e isso me assusta, porque não acho que a minha história seja triste. Encontrar uma segunda chance, uma pessoa que te ama e te acolhe na vida dela sem esperar nada em troca, é algo maravilhoso, uma oportunidade que poucos têm. Sou muito grata a ela e por nunca ter tratado a minha história, a nossa história, como uma tragédia”, recorda Thamiris. 

Ela reconhece ter sido ciumenta em relação à sua mãe, principalmente na infância e no início da adolescência, quando a sua mente infantil associava qualquer relacionamento que Maria dos Anjos pudesse ter como um “concorrente” em potencial. Mas elas trabalharam as inseguranças juntas, na medida que elas surgiram, e se tornaram cúmplices uma da outra. “Para os filhos eu diria, amem as suas mães, pois deve ser muito desafiador assumir uma responsabilidade dessas. E nós erramos bastante também, porque somos humanos, e conforme vamos crescendo, percebemos que elas fizeram seu o melhor. Não tem pessoa que nos ame mais que a nossa mãe”.

AUTORA

Carol Bonamigo

Jornalista, especialista em Cinema e Realização Audiovisual, viciada em cultura pop e enófila de carteirinha.
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