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16/10/2020 papo cabeça

Um espaço para todos

Desenho universal e acessibilidade

Muitas pessoas enfrentam limitações físicas e motoras em suas rotinas, seja para abrir uma torneira, subir lances de escada ou se locomover. e mais do que falar em inclusão, é preciso discutir a acessibilidade integralizadora, voltada para todos os cidadãos, com ou sem deficiências. ou seja, o desenho universal. para esclarecer melhor o assunto, a FV conversou com a arquiteta e urbanista Gabriela Borges da Silva, mestra em políticas sociais e dinâmicas regionais e pesquisadora na área.


No que consiste o termo “Desenho Universal”? Onde surgiu essa expressão?

Desenho Universal (ou Universal Design, em inglês) é um conceito que compreende a necessidade do olhar que contemple toda a diversidade humana, isso envolve desde pessoas com deficiência física, intelectual, sensorial, até as pessoas com mobilidade reduzida, crianças, idosos, gestantes, obesos, entre tantas outras características que nos tornam diferentes uns dos outros. O conceito foi concebido na década de 1980 pelo arquiteto norte-americano Ron Mace, que usava cadeira de rodas. Mais tarde, se difundiu entre acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual da Carolina do Norte, que buscaram definir um projeto de produtos e ambientes acessível para todas as pessoas.


Existe algum vínculo entre o conceito e a acessibilidade? Um substitui o outro ou são complementares?

Apesar de convergentes, ambos são fundamentais e nenhum elimina o outro. Atualmente, o Desenho Universal é compreendido em aspectos abrangentes. Dessa maneira, a acessibilidade está incorporada ao conceito e os dois se complementam. Reflito muito sobre o Desenho Universal enquanto acessibilidade atitudinal, que se refere à percepção do outro sem preconceitos, estigmas ou discriminações, englobando, desta forma, todas as demais formas de acessibilidade existentes.


De que maneira os princípios do Design e da Arquitetura podem se favorecer com a incorporação do “Desenho Universal”?

Tanto o Design quanto a Arquitetura estão intrinsecamente conectados ao Desenho Universal, especialmente aos fundamentos do conceito, estabelecendo a utilização igualitária de espaços, objetos e produtos por pessoas com diferentes capacidades, tornando os ambientes mais acessíveis. Em termos conceituais, destaco alguns exemplos: flexibilidade através do design de produtos ou espaços (para atender diferentes públicos); uso simplificado e intuitivo (compreensível para todas as pessoas); informações de fácil percepção (para cegos, surdos, idosos, pessoas de baixa estatura, etc); segurança e minimização de riscos, dimensões e espaços apropriados para acesso, alcance, manipulação e uso com mínimo esforço físico.


Mas na prática, como funciona o “Desenho Universal”? É somente aplicado em mobiliários?

Não, de forma alguma se restringe aos mobiliários. A meta é que qualquer ambiente ou produto possa ser acessado, alcançado e manipulado independentemente das condições físicas, motoras e intelectuais da pessoa que o utiliza. É importante compreender, antes, a capacidade transformadora e democratizadora que o Desenho Universal pode oferecer. O conceito não deve ser direcionado somente aos públicos que prioritariamente dele necessitam, ou seja, pessoas com deficiência. Pelo contrário, precisa ser destinado a todos os cidadãos, facilitando a vida em sociedade de maneira universalizada e assegurando direitos como autonomia, inclusão e segurança, dimensões e espaços apropriados para acesso, alcance, manipulação e uso com mínimo esforço físico.


Esse conceito é popularizado no mundo ou ainda faltam etapas para se tornar, de fato, universalizado?

O Desenho Universal já é bastante difundido mundialmente. Ainda na década de 1960, diferentes países reuniram-se para dar voz ao que foi chamado de Free Design. Através de uma comissão, buscaram discutir equipamentos, edifícios e áreas urbanas adequados às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Esse conceito continuou em debate e passou a se chamar Universal Design, propondo-se a atender todas as pessoas, em âmbito realmente universal, contemplando pessoas com ou sem deficiência. A partir dos anos 80 houve maior repercussão no Brasil, e nos anos 2000 foram estabelecidas legislações (como as Leis nº 10.048/00 e nº 10.098/00 e o Decreto Federal nº 5.296/04) para regulamentar o acesso coletivo através do Desenho Universal. Contudo, a popularização do termo e do uso deve permear o ensino do Design e da Arquitetura e envolver de maneira geral toda população, para que cada vez mais os princípios sejam difundidos e acessíveis a todos.

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