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13/10/2025 papo cabeça

Oftalmologia infantojuvenil

1 em cada 5 estudantes brasileiros tem dificuldades visuais. Um bate-papop com a Dra. Janaína de Oliveira Dias.

Cerca de 19% dos brasileiros em idade escolar apresentam problemas de visão, representando aproximadamente 800 mil crianças vivendo com problemas oftalmológicos. E ainda, houve 70% de aumento na progressão da miopia em jovens nos últimos cinco anos. além disso, estima-se que aproximadamente 10 milhões de jovens necessitam de cuidados especializados nesta área. e essa crescente está associada, especialmente, ao uso excessivo de telas. Por isso é tão importante que os pais fiquem alertas aos sinais que seus filhos possam apresentar de problemas de visão. Para falar mais sobre isso, a fv entrevistou a médica oftalmologista, Janaína de Oliveira Dias, especialista em lentes de contato especiais e córnea, mestre em tecnologia, gestão e saúde ocular.


Flash Vip: As condições oftalmológicas, geralmente, começam a se manifestar na infância de forma sutil. Às vezes os pais nem mesmo percebem que seu filho está com dificuldade na visão e só buscam ajuda quando o problema já está instalado e dificilmente a situação pode ser revertida. Por isso é tão importante estar atento a todos os aspectos da vida dos pequenos e acrescentar as consultas oftalmológicas na rotina de saúde dos filhos. Com qual idade é recomendada uma visita ao oftalmologista? 

Janaína de Oliveira Dias: A visão começa a se formar com oito semanas de gestação e ela só conclui aos 7 anos de idade, mais ou menos. Então precisamos cuidar muito nessas fases, pois a criança está em franco desenvolvimento. A primeira consulta é o teste do olhinho, que é o teste do reflexo vermelho. Isso é feito ao nascer, pelo pediatra, é fundamental e exclui várias patologias. A segunda consulta – e este é um conceito muito novo – é feita com 1 ano de idade, e depois anualmente por toda a vida. Pois a cada fase você vai ter algo diferente, especialmente quando está se desenvolvendo muito rápido. 


FV: E quais são os principais sinais que pais devem ficar atentos? 

JOD: Uma criança que chega muito perto da TV para assistir, que tropeça e se bate com facilidade e até mesmo aquelas crianças que são tidas como ‘rebeldes’ no colégio, que não querem ou não conseguem prestar atenção, não querem copiar a matéria. Isso se confunde muito com TDAH, e pode ser um problema de visão, pode ser que essa criança tem 5 graus de miopia e não  está enxergando o quadro. E isso é muito comum. Também quando a criança apresenta dor de cabeça constante, pode ser um alerta. E o estrabismo – que é o olhinho vesgo –, são todos sinais que devemos prestar atenção. 


FV: Em quais situações a deficiência visual pode ser revertida? 

JOD: Tem uma condição chamada ambliopia, que é o olho preguiçoso, e se tratada corretamente até os 7 anos de idade, é reversível. É um olho que, por algum motivo, não se desenvolve. Isso acontece, geralmente, quando se tem muito grau em um olho e pouco no outro. Nisso, o cérebro da criança meio que ‘desliga’ um lado para usar o que está enxergando melhor, e os pais não percebem isso. Essa criança vai precisar usar óculos e, quem sabe, até tampão para forçar o outro olho a enxergar também, e assim volta a visão. 


FV: Por causa do uso excessivo de telas, especialmente celulares e tablets – que ficam tão próximos ao rosto –, está sendo cada vez mais comum as crianças e adolescentes desenvolverem o cansaço visual. Além disso, as telas também estimulam o aparecimento da miopia. Como e por que isso ocorre? 

JOD: Até uns 5 anos atrás, não se tinha muito o entendimento que poderíamos tratar a miopia. O olho míope é, basicamente, um olho grande, que cresceu de forma desproporcional e pode ocorrer tanto para dentro quanto para fora. O que acontece hoje é que, com o excesso de telas e telas muito próximas do rosto, o olho acaba crescendo, e desenvolvendo uma miopia muito séria, com graus altíssimos. Então o grande objetivo hoje é tratar essas crianças. Ainda tem a questão da luz azul, que também afeta a produção de melatonina e traz alterações no sono – isso para todas as idades, mas vemos principalmente nos adolescentes, que acabam virando a noite. Isso sem contar o problema psicossocial, que acaba viciando essas crianças muito cedo nas telas. Mas é todo um estilo de vida: atividades ao ar livre para estimular a visão para longe – preferencialmente algum esporte –, exposição ao sol e redução de telas. 


FV: E sobre lentes de contato, existe idade mínima para receitá-las? O que deve ser le vado em conta? 

JOD: A reabilitação visual com lentes de contato é um mundo a parte. Existem muitos tipos de lentes de contato e elas não são só para fins estéticos. Elas são como a perna mecânica para quem não tem perna. É o que a gente chama de órtese – um aparato que te ajuda a desenvolver uma função que você não teria de outra forma. Já existem lentes de contato para bebês, caso seja indicado. Se a criança não tem uma lente no olho, tem que usar lente de contato; ou no caso de muita diferença de graus entre os olhos – mais de 3 graus de diferença –, é indicado a correção através de lentes de contato. Existem também lentes de contato que retardam a progressão da miopia e não a deixam aumentar descontroladamente. Tem as lentes gelatinosas – que tenho até pacientes de 4 anos usando –; e as de uso noturno, que você dorme com ela e passa o dia sem óculos. Chama-se ortoceratologia, é como se toda noite você passasse por uma cirurgia. Serve para controle de miopia, e funciona bem para atletas ou pessoas que não querem ou não podem usar óculos. Tem as lentes de contato multifocais; e tem também as lentes para tratar doenças como ceratocone, que são lentes pequenas e rígidas, que empurram essa deformação do olho e melhoram a visão, coisa que um óculos não faz. Então, tem de tudo e para todas as idades. Vai depender da necessidade e da disposição do paciente. 


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AUTORA

Carol Bonamigo

Jornalista, especialista em Cinema e Realização Audiovisual, Diretora de Jornalismo e sócia da revista Flash Vip
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