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05/04/2022 papo cabeça

NF o quê?

Mercado, universo digital e a tecnologia blockchain

O universo digital está em constante evolução. Efeito disso é o surgimento da tecnologia blockchain: um sistema que permite o rastreio de códigos que carregam informação conectada como uma corrente através da internet. Essa tecnologia abriu possibilidades que acarretaram em grandes mudanças, principalmente no mercado financeiro: as criptomoedas. Com o advento de um novo mundo completamente virtual, cresce a pesquisa sobre questões como bens intangíveis, segurança e agilidade sobre o tráfego de informação. Nesta edição, a FV conversou com Willian Rocha Rodrigues, assessor de investimentos da Nippur Finance, credenciada à XP Investimentos, para entender o que são os tão comentados NFTs.


Flash Vip: Nos últimos anos, observamos uma grande alta do uso das criptomoedas – a principal delas o Bitcoin – tanto no mercado financeiro como em transações na internet. Mais recentemente, um recurso que ganhou popularidade neste meio foi o NFT. Afinal, o que é e para que serve?

Willian Rocha: O mundo dos criptoativos como um todo teve início com o surgimento do Bitcoin. Foi ele que trouxe essa nova tecnologia, essa nova possibilidade de ter ativos únicos não replicáveis dentro da internet. Os NFTs também usam essa tecnologia, como o próprio nome da sigla em inglês diz: Non-fungible Tokens, ou seja, Tokens Não-fungíveis. Quer dizer que são ativos que não podem ser replicados, são únicos dentro do ambiente da internet. O melhor exemplo que a gente acaba tendo para NFTs, e acho que também os que acabaram ficando mais famosos, são as próprias obras de arte. Por mais que existam prints ou cópias de imagens, você tem, através dos NFTs, como provar que alguém é dono de um determinado item, de uma determinada imagem, de uma determinada música.


FV: A quem pode beneficiar e quais são os principais ganhos que se pode observar no mercado hoje, tanto para vendedores quanto para compradores de NFTs?

WR: Acredito que o benefício vai para ambas as partes, tanto a compradora quanto a vendedora. Porque a blockchain, o NFT, essa rede como um todo consegue trazer essa união sem a necessidade de intermediários entre as duas partes. Você consegue fazer negócios muito mais facilmente com um nível de segurança que as redes vêm aumentando cada dia mais, então o benefício da troca acaba sendo para ambas as partes. Você poder transformar aquilo que antes não tinha-se um dono, era muito mais fácil de você replicar sem uma comprovação dentro da internet, agora você consegue trazer isso para esse ambiente também.


FV: Algumas celebridades, como Neymar e Justin Bieber, pagaram mais de R$ 6 milhões na compra de NFTs. Como a venda de uma imagem pode chegar a este preço, e que benefícios se pode obter com essa compra?

WR: Isso é algo que chamou bastante a atenção, principalmente pelo preço pago em duas imagens dos macacos personalizados de uma coleção chamada Bored Ape [Yatch Club]. Ela é uma coleção exclusiva, foi lançada ao longo dos meses e começou a ser aderida por algumas figuras famosas do mundo e acredito que essa questão de eles começarem a aderir e ser um grupo seleto que tem isso, a questão da exclusividade trouxe esse preço também. Se é algo que vale ou não, depende. Se tem alguém disposto a pagar, é porque acaba valendo. Os benefícios dessa compra, nesse caso específico dos Bored Apes, é realmente uma questão de especulação, de você fazer parte de um grupo seleto de pessoas que tem algo único, uma espécie de obra de arte, de item único ali dentro da internet e de ser parte desse grupo em específico. É claro que a partir daí podem sim criar alguns benefícios, como existem alguns clubs com acesso restrito somente a quem possui o item comprovado, então talvez essa questão realmente mais da exclusividade, de você poder ter acesso e poder dizer que você é dono daquilo.


FV: Mesmo que um NFT tenha sido comprado por uma pessoa, como neste caso das ilustrações dos macacos, as imagens podem continuar circulando livremente pela internet? O proprietário pode cobrar royalties sobre o uso ou reprodução da sua propriedade?

WR: Sim, a imagem desse NFT ainda pode continuar circulando na internet. Mas essas imagens serão cópias. Eu posso aqui tirar um print, fazer uma cópia e continuar circulando. O fato é que agora, o Neymar, ali nesse caso, pode dizer que ele é o real dono daquela imagem original. Fazendo uma relação com outro mercado: obras de arte, novamente. O artista pode ir lá, fazer a obra original, assinar, e alguém pode comprar essa obra. A partir daí, podem vir outras pessoas e tirar fotos, fazer cópias disso e também distribuir, mas nós sabemos que aquelas são apenas cópias. É por isso que a obra original vale muito mais, coisa que as outras podem não valer. Se o proprietário pode cobrar royalties: sim, de certa forma sim. Inclusive, acho que uns dos melhores exemplos dessa cobrança talvez seja no mundo da música, onde alguns artistas já começam a fazer NFTs, distribuir suas músicas através de NFTs e pode, através da inteligência da rede, sempre cobrar esse royalty com a distribuição. Novamente, é claro que aqui podem ter cópias, é impossível, talvez, você rastrear todas as transferências dessa música no ambiente da internet em si. Mas dentro da rede, aquilo que seria o original, sim, é possível através da rede inteira da blockchain em que foi lançada essa música, cobrar-se royalties pra quem for aderindo ou distribuindo esse item.


FV: Junto com a popularização dessa novidade, tem se falado em dano ambiental neste mercado. Existem riscos, tanto ao meio ambiente quanto aos compradores, no comércio de NFTs?

WR: A questão ambiental está muito relacionada ao consumo de energia efetuado pelo mundo dos criptoativos. Para manter a mineração, que é para manter a rede segura, estável e funcionando de forma eficiente, você acaba utilizando muito poder computacional, e com isso muita energia elétrica para fazer isso funcionar. É claro que existem também outros estudos, que o consumo dessa energia hoje no mundo inteiro acaba sendo um percentual não relevante para tudo que é consumido. Mas nesse caso, entra também um outro fator, que com o aumento do consumo e também do do custo energético para manter essas redes funcionando, existe um estímulo para que as próprias mineradoras, as pessoas que usam essa energia, criem soluções e aumentem a capacidade de produção de energia mais limpa e barata no mundo para que você consiga suprir essa necessidade das redes. Sobre o risco aos compradores, acho que vale bastante destacar que não é porque é um NFT, não é porque é um criptoativo, que isso pode multiplicar e se valorizar por ‘N’ vezes. Sempre exige-se um cuidado, porque como a rede é muito livre e de fácil acesso a todos e, até o momento, com menos regulação, você pode sim ter riscos ali dentro. É sempre bom você pesquisar, você ter noção do que você está negociando, se existem mais riscos ali por trás, se é confiável, se já tiveram outras transações por esse item. É mais em torno da questão do conhecimento, assim como outros tipos de investimento que você sempre deve conhecer a fundo o que você está comprando, dentro desse mundo não é diferente.


FV: Essa parece uma tecnologia recente, mas com grande potencial de exploração. Os principais exemplos de NFT que vemos hoje na internet são a venda de imagens ou animações. A que outros fins essa tecnologia serve e pode vir a servir futuramente?

WR: É uma rede super nova, mas que tem trazido consigo uma tecnologia muito interessante e que tem um potencial bastante grande. Eles têm chamado isso de Web 3.0. É uma nova forma de você lidar com a internet, uma nova internet em si que permite certas coisas que antes não eram feitas. Acho que a principal delas aqui é a eliminação de um intermediário em certas formas de negociação. A própria rede, a internet vai ser essa parte central, esse intermediário, através da inteligência da blockchain que vai garantir que as transações sejam feitas de forma segura e correta para ambas as partes. Essa inteligência traz inúmeras possibilidades, formas de você aproveitar isso no mundo, seja através das NFTs de música que eu comentei anteriormente, que vai garantir que o artista distribua ele mesmo essa música, cobrando os royalties, fazendo todas as negociações dentro da blockchain. Alguns contratos inteligentes podem ser negociados dentro da rede como uma forma de que esses contratos sejam cumpridos por ambas as partes, tanto com os direitos quanto os deveres, então, a rede vai garantir que ele seja bem executado. Esse contrato pode ser o que você imaginar: de uma casa, de uma compra ou venda de um veículo, de um imóvel.


FV: O que é a “mineração” de criptomoedas?

WR: Para manter a rede funcionando, tanto a rede do Bitcoin quanto a dos NFTs, do Ethereum, você precisa de força computacional. Você precisa de computadores trabalhando para que ela tenha segurança, para que ela funcione de maneira correta. Esse processo é basicamente você colocar poder computacional, nesse caso você coloca placas de vídeo, computadores, e normalmente você coloca em grande quantidade para poder fazer a rede funcionar, e em troca desse serviço que você presta pra rede, ela te recompensa com as moedas dessa rede. Por exemplo o Bitcoin, se você colocar força computacional para manter a rede funcionando, você vai ser recompensado através dessa própria moeda. Basicamente, o que esses computadores fazem são resolver cálculos matemáticos super complexos que fazem com que a rede continue funcionando. Esses cálculos e códigos são processos feitos para autenticar as transações, poder mostrar que ela está correta e finalizar ela. Quanto mais complexo, mais dá segurança à rede como um todo. Mas em contrapartida, também exige um maior poder computacional, mais computadores trabalhando nisso, mais força para que esses cálculos sejam resolvidos e transacionados. Sobre a energia, isso se relaciona com as pessoas buscando fontes de energia barata justamente porque a energia é cara e esses computadores gastam muita energia para fazer esse processo. Então, os moradores buscam a fonte de energia mais barata possível, e a energia termoelétrica acaba sendo mais barata. Por isso também se correlaciona com dano ambiental, porque a gente sabe que a termoelétrica não é a mais limpa possível, existem outras fontes mais limpas.


FV: O que são NFTs carbono zero?

WR: Existem alguns projetos justamente porque entrou em pauta de forma mais expressiva essa questão ambiental das criptomoedas pelo uso da energia. Alguns desses NFTs buscam compensar isso com a compra de créditos de carbono. Então, você acaba tendo essa parte do recurso destinado à compra de crédito de carbono para que você, no fim das contas, saia com emissão desses NFTs com carbono zero, então você acaba compensando isso.


Foto: Arquivo pessoal

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