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31/05/2022 moda

Moda & o mercado de luxo

O que a moda vem fazendo para diferenciar as classes?

Alguns muitos anos atrás, até o final da Idade Média, a moda era facilmente usada como diferenciação social. Era nítido quem era da nobreza e quem não era. Existiam códigos muito claros que falavam a que classe você pertencia. Era um tecido específico, um broche ou uma cor. Com a revolução industrial a partir do século XVIII, o vestir se tornou mais acessível, ricos e pobres eram naturalmente confundidos, todos vestiam roupas muito parecidas. O surgimento do Prêt-à-Porter tem influência nisso.

A partir do século XXI, o mercado de falsificação aumenta dia após dia. Dados do IBGE acusam que, em 2006, roupas e tênis copiados abocanharam o equivalente a 40% da arrecadação da extinta CPMF, cifra de mais de R$ 12,8 milhões. Logos de grifes caríssimas eram vistas estampadas em roupas, calçados e acessórios. Com o tempo, as maisons ficaram retraídas e a maneira que encontraram para diferenciar o mercado de luxo foi apostar na discrição. Marcas e etiquetas eram quase que invisíveis, só quem realmente convivia com um produto de alto padrão saberia identificar.

Atualmente, em especial a partir de 2017, a logomania retoma a moda e o que antes precisava ser a discrição para manter a originalidade do produto, hoje há uma inversão de pensamento ou uma bela jogada de preservação de relevância e valor de marca. Por que eu compraria uma peça original que parece falsificada? Ou seja, o mercado da moda, em especial as grandes grifes de luxo, estão se aproximando de itens das classes mais baixas para se diferenciar da classe média.

Quando falamos em diferenciação, não podemos deixar de mencionar Balenciaga, que faz isso com maestria. Primeiro sua estampa repetitiva que sobrepunha a logo da Gucci, em 2021. Algo vanguardista para o mercado de luxo, afinal, pareciam peças tiradas diretamente de um mercado popular de rua. Recentemente, o frisson da Balenciaga foi o lançamento da linha de sneaker intitulada de “Paris”, onde tênis super desgastados são vendidos a valores extraordinários.

E a pergunta é: quem compraria um calçado assim? A resposta é: classe A. À medida que os bens de consumo de luxo vão se tornando mais acessíveis aos mortais, ricos aceitam experimentar um tênis grotesco, a fim de mostrar seu poder aquisitivo e sinalizar seu patrimônio. Enquanto isso, a classe média precisa se apegar a elementos de status identificáveis. Em Inventando Anna, recente trama lançada pela Netflix na qual uma golpista conseguiu se tornar uma das maiores figuras da elite burguesa de Nova Iorque, mesmo vindo de origem pobre, traz essa ideia do status.

Mas olha só que ironia, apesar da moda nitidamente diferenciar as classes dando destaque ao mais alto poder aquisitivo, quem realmente mantém o mercado provém da classe média. Segundo relatório apresentado pelo Goldman Sachs, a classe média provê 38% da demanda de bens de luxo, contra 22% dos biliardários. São muitos os que “trabalham” em prol de uma minoria. E essa história se repete novamente. Se por acaso achar a história parecida com a vida real, não é mera coincidência.

AUTOR

Bruno Gerhardt

Colunista convidado da FV, é Designer, Criador de Conteúdo e Especialista em Moda.
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