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29/03/2023 andarilho

Memórias de uma Arno

Coleções: a memória afetiva com cabo elétrico

Todos nós temos alguma lembrança vívida sobre um fato do passado. Alguma experiência afetiva que fica guardada na memória e é ativada por diferentes gatilhos: pode ser um cheiro, uma cor, um lugar, um gosto ou por um conjunto de vários destes. Pode também ser um objeto, ou vários deles.

Essa história começa em 1882, com um italiano chamado Carlo Arnstein, importador de café brasileiro. As bolsas de café importadas recebiam a escrita “Arno” quando comercializadas. Hans ou João Arnstein, filho de Carlo, naturalizou-se brasileiro e em 1938 criou uma empresa especializada na fabricação de motores elétricos. A empresa iniciou no Brasil em um período de industrialização, e com a marca Arno, passou a produzir eletrodomésticos com design norte-americano e seus produtos chamavam a atenção pela qualidade, cores vibrantes e variedade.

Em 1997, a Arno foi vendida para um conglomerado francês líder no segmento de eletroportáteis. Em todo esse tempo no País, milhares de lares brasileiros devem ter um ventilador, uma batedeira, um aspirador de pó, um liquidificador ou um secador de cabelo da Arno, afinal são produtos feitos (naquela época) para durar. Prova disso é a exposição “Memórias de uma Arno”, uma coleção particular exposta na galeria do MAF – Memorial Attilio Fontana, em Concórdia/SC. Ian Rodrigues, 21 anos, tem centenas de objetos na coleção. A paixão por liquidificadores e batedeiras começou na infância, aos 6 anos de idade, admirado pelo design marrom das peças. A coleção iniciou em 2021 e está exposta pela primeira vez ao público – com todos os eletroportáteis funcionando, diga-se de passagem.

Apesar da coleção ter como ponto de partida as suas próprias memórias afetivas – ele conta que aprendeu a fazer o primeiro pão de queijo com a vó Josefina, num liquidificador marrom que fazia muito barulho, tremia a mesa e chuviscava a televisão – Ian também salvaguarda a memória do outro, recebendo doações de produtos Arno. A tia doou uma batedeira de 1994, fruto do casamento. Outra senhora, Dona Mercedes, doou uma batedeira de 1983, na cor caramelo. Cada uma com sua história, agora preservada.

É curioso olhar para essa linha histórica que começa em 1882 e que em 2023, aqui no interior do estado de Santa Catarina, coloca mais um ponto de memória para não ser esquecida. A exposição “Memórias de uma Arno” te convida a passear pelo tempo histórico e afetivo do que poderia ser só um simples, prático e potente liquidificador. 

Em exposição na galeria do MAF até 1º de abril, com entrada gratuita. Saiba mais em @memorias_deumaarno

AUTOR

Artêmio Filho

Colunista convidado da FV, é administrador, produtor e gestor cultural de Concórdia, na Sabiá - Gestão Criativa
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