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08/08/2023 andarilho

Bolo e mortadela

O cardápio para uma história recente

Desde criança escuto falar sobre o tradicional corte do bolo e da mortadela, que acontece sempre no mesmo dia, sempre no mesmo local, sempre na mesma cidade. E não é um bolo qualquer, nem mesmo uma mortadela qualquer: esses fazem parte do cardápio para comemorar os anos de Concórdia, no dia 29 de julho. 

Não é de hoje que a festa do povo acontece nas intermediações da praça central. Em mil novecentos e noventa e seis, o prefeito da época, Sr. Moacir Sopelsa, instituiu que a idade da cidade fosse representada em metros, e assim se fez: em dois mil e vinte e três, foram oitenta e nove metros de bolo fazendo par com oitenta e nove metros de mortadela. O doce em si representa a festa, a comemoração. Já a mortadela, representa o trabalho e a indústria – mais precisamente a indústria Sadia, que nasceu aqui apenas dez anos após a emancipação político-administrativa de Concórdia.

Mil novecentos e vinte e quatro foi quando o acordo, feito no fio do bigode entre o agrimensor Victor Kurudz e o Coronel Fabrício das Neves – “diante do que acabamos de concordar” – que o nome Concórdia surge para designar esse espaço geográfico já habitado antes da chegada da colonizadora Mosele, Eberle Ahrons & Cia. O reduto caboclo que ocupava a região onde hoje é a Praça Dogello Goss foi convencido pelo Coronel para se afastar para uma área chamada Fazenda das Laranjeiras, dando espaço para os colonizadores utilizarem a área nobre das terras. Concordaram, mas sofreram uma emboscada e foram mortos, todos, cumprindo com os planos de “branqueamento” das terras promissoras. Não teve bolo, nem mortadela naquela época. 

A população que habitava aqui, desde o povo Xokleng até os Caboclos, foi expulsa e a terra ficou “limpa” para receber os imigrantes europeus, vindos principalmente das colônias italianas do Rio Grande do Sul. De lá pra cá, a cultura italiana e alemã dominaram a Colônia Concórdia e a cultura cabocla e indígena foram ficando no esquecimento. Ainda hoje escuto a versão da história onde o nome Concórdia surgiu por um acordo de paz. Isso mesmo, de paz. Mesmo o Coronel Fabrício tendo lutado na Guerra do Contestado, mesmo o Coronel Fabrício tendo conhecido o Monge José Maria, mesmo o Coronel Fabrício sendo um desertor do Exército Brasileiro, seu acordo de paz entre a colonizadora e a população cabocla decretou o fim da cultura predominante dessa região.

Hoje, completando seus oitenta e nove anos, Concórdia comemora o acordo, mesmo que inconscientemente. No dia da festa, bandinhas divertem os mais velhos, brinquedos infláveis os mais novos e muita gente separa um pote plástico para levar um pedaço de bolo para casa. Na Valsa Concórdia, entoada quase sempre para representar a alegria de viver dos concordianos, cantamos: gente piu buona mai piu nascerá, el bambino la mama e pupa, tuti felicità. Tudo muito docinho, docinho como um glacê. Tudo muito moído como um pedaço saboroso de mortadela. Mas eu ainda prefiro uma quirera com suã.


Fotos: Arquivo ND e Rádio Rural

AUTOR

Artêmio Filho

Colunista convidado da FV, é administrador, produtor e gestor cultural de Concórdia, na Sabiá - Gestão Criativa
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