O cardápio para uma história recente
Desde criança escuto falar sobre o tradicional corte do bolo e da mortadela, que acontece sempre no mesmo dia, sempre no mesmo local, sempre na mesma cidade. E não é um bolo qualquer, nem mesmo uma mortadela qualquer: esses fazem parte do cardápio para comemorar os anos de Concórdia, no dia 29 de julho.
Não é de hoje que a festa do povo acontece nas intermediações da praça central. Em mil novecentos e noventa e seis, o prefeito da época, Sr. Moacir Sopelsa, instituiu que a idade da cidade fosse representada em metros, e assim se fez: em dois mil e vinte e três, foram oitenta e nove metros de bolo fazendo par com oitenta e nove metros de mortadela. O doce em si representa a festa, a comemoração. Já a mortadela, representa o trabalho e a indústria – mais precisamente a indústria Sadia, que nasceu aqui apenas dez anos após a emancipação político-administrativa de Concórdia.
Mil novecentos e vinte e quatro foi quando o acordo, feito no fio do bigode entre o agrimensor Victor Kurudz e o Coronel Fabrício das Neves – “diante do que acabamos de concordar” – que o nome Concórdia surge para designar esse espaço geográfico já habitado antes da chegada da colonizadora Mosele, Eberle Ahrons & Cia. O reduto caboclo que ocupava a região onde hoje é a Praça Dogello Goss foi convencido pelo Coronel para se afastar para uma área chamada Fazenda das Laranjeiras, dando espaço para os colonizadores utilizarem a área nobre das terras. Concordaram, mas sofreram uma emboscada e foram mortos, todos, cumprindo com os planos de “branqueamento” das terras promissoras. Não teve bolo, nem mortadela naquela época.
A população que habitava aqui, desde o povo Xokleng até os Caboclos, foi expulsa e a terra ficou “limpa” para receber os imigrantes europeus, vindos principalmente das colônias italianas do Rio Grande do Sul. De lá pra cá, a cultura italiana e alemã dominaram a Colônia Concórdia e a cultura cabocla e indígena foram ficando no esquecimento. Ainda hoje escuto a versão da história onde o nome Concórdia surgiu por um acordo de paz. Isso mesmo, de paz. Mesmo o Coronel Fabrício tendo lutado na Guerra do Contestado, mesmo o Coronel Fabrício tendo conhecido o Monge José Maria, mesmo o Coronel Fabrício sendo um desertor do Exército Brasileiro, seu acordo de paz entre a colonizadora e a população cabocla decretou o fim da cultura predominante dessa região.
Hoje, completando seus oitenta e nove anos, Concórdia comemora o acordo, mesmo que inconscientemente. No dia da festa, bandinhas divertem os mais velhos, brinquedos infláveis os mais novos e muita gente separa um pote plástico para levar um pedaço de bolo para casa. Na Valsa Concórdia, entoada quase sempre para representar a alegria de viver dos concordianos, cantamos: gente piu buona mai piu nascerá, el bambino la mama e pupa, tuti felicità. Tudo muito docinho, docinho como um glacê. Tudo muito moído como um pedaço saboroso de mortadela. Mas eu ainda prefiro uma quirera com suã.
Artêmio Filho
Colunista convidado da FV, é administrador, produtor e gestor cultural de Concórdia, na Sabiá - Gestão Criativa