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05/04/2022 andarilho

Lá no mato

Um ponto de encontro que acomoda muita gente.

Já faz um tempo que o encontro de fim de ano acontece “lá no mato”. É assim que o povo do teatro carinhosamente chama o espaço lá em Linha Schiavini, sede do Grupo Teatral Piliquinha, aqui em Concórdia/SC. Lá a gente fala alto, fala baixo, come, bebe, brinca, pega no pé, joga indiretas, faz despedidas, fala mal dos outros, fala bem dos outros, faz assembleias gerais, respira. 

As Pilicas nasceram lá. Com os pais agricultores, as irmãs cresceram trabalhando na roça até decidirem estudar Artes Cênicas. A partir do ano de 2012, tiveram o teatro como profissão e sempre desejaram transformar o espaço lá no mato em um ponto de fruição artística e cultural no município de Concórdia, priorizando o deslocamento de ações do centro urbano – onde muita coisa acontece – para o interior – onde muita coisa deixa de acontecer. E a história breve que vou contar sobre o espaço, só aumenta o desejo de seguir a luz desse farol para se aconchegar juntos às árvores e açudes que compõem a paisagem. 

Oito quilômetros distante do centro, quase três de estrada de chão, no final de uma rua paralela à Estrada Geral, lá no mato. Uma propriedade familiar com um conjunto de quatro casas e dois grandes açudes, pomar, hortas e floresta. A construção que hoje recebe programações culturais, teve sua primeira função como chiqueiro. Isso durou poucos anos, porque trocaram a criação de porcos pela criação de vacas leiteiras, desta forma, o espaço foi adaptado para servir como uma estrebaria para ordenhar as vacas. Essa fase durou mais tempo, até a idade adulta, quando as irmãs foram morar na cidade. 

Aos poucos os pais venderam as vacas e transformaram mais uma vez o galpão, agora adaptado para galinhas poedeiras. Acabaram também com as galinhas. O galpão se transformou novamente, agora servia como um depósito de utensílios agrícolas. Com o desuso do espaço e a aposentadoria dos pais na roça, a mesma base do chiqueiro que virou estrebaria que virou galinheiro que virou depósito estava pronta para ser novamente alguma coisa: agora um espaço para a arte.

Hoje, lá no mato, temos o Coletivo Cultural Rural, um espaço autônomo e independente, compartilhado por um grupo de artistas, um grupo de teatro e um grupo de capoeira Angola. Além da sala de apresentações que comporta até 40 pessoas, possui um imenso espaço externo para atividades ao ar livre. Na primeira programação que o Coletivo ofereceu para a comunidade em 2022, tomei chá, comi bolacha pintada, assisti uma contação de história construída a partir do livro “A menina e o pássaro encantado”, do Rubem Alves, ouvi trechos de escritos dele, li curiosidades e fatos sobre sua vida.

No fim da tarde, fizemos uma grande roda para ver, ouvir e sentir a capoeira de Angola no barraco de vadiação, como diz o professor. O barraco é um espaço anexado ao galpão, e foi construído pelas pessoas do grupo, pedra por pedra, madeira por madeira, atitude por atitude. 

Assim como uma taipa de pedra, equilibrada sobre múltiplas formas, o Coletivo Cultural Rural vai se assentando como um lugar de arte, um lugar de encontro verdadeiro, que nos convida a refletir sobre sonho, cooperação, resistência e novas possibilidades para as artes aqui no mato. 


AUTOR

Artêmio Filho

Colunista convidado da FV, é administrador, produtor e gestor cultural de Concórdia, na Sabiá - Gestão Criativa
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