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19/06/2020 moda

Hora de resetar

Moda pós-pandemia.

Já dizia Lulu Santos, “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Seria ele um vanguardista ou um profeta? Isso não sabemos, e para falar a verdade, não interessa saber. A questão é que o mundo mudou, nós mudamos (ou deveríamos ter mudado) e a moda mudou ou pelo menos criou-se uma incerteza sobre a existência desse universo, já que é tratado como supérfluo. Será? A moda foi quem sempre marcou cada grande mudança ao longo das décadas.

A calça feminina na década de 1920, por Gabrielle Chanel, e o uso do jeans no casual wear com o pós-guerra, são exemplos disso. E sim, a moda pode ser considerada um bem de consumo supérfluo, quando esta trabalha unicamente com o desejo, deixando de ser um bem de consumo essencial, como uma jaqueta para cobrir o corpo e se proteger do frio, uma roupa produzida ergonomicamente para uma pessoa com deficiência, para a segurança do trabalho.

A moda sempre foi uma precursora de desejo, as fast fashion estão aí para provarem isso, “moda rápida e acessível”. Mas uma questão que veio mesmo antes da pandemia e perdura até o momento é a desaceleração do mercado e a preocupação com o meio ambiente e, consequentemente, com a cadeia produtiva sustentável, que cuida desde a escolha da matéria prima do fio até a comercialização final de um produto.


Nada normal

É preocupante o que o novo coronavírus pode fazer com o mercado da moda? Sim e muito. Aproximadamente, o mercado estaria empregando 10 milhões de pessoas (grande parte mulheres) só no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT). Ou seja, a moda pode não ser um item essencial para muitas pessoas, mas para quem sobrevive dela talvez seja a única opção e não perder seus empregos torna-se uma luta por sobrevivência.

Desde que começou a era coronavírus, ações para fortalecer o mercado e a economia foram criadas como hashtags #euapoioamodanacional #compredopequeno #compredolocal. Consequentemente, estamos mais envolvidos do que nunca a valorizar o que é da terrinha e finalmente ter a chance de ser patriota. Semanas de moda foram canceladas, marcas como Giorgio Armani e Saint Laurent deixam de participar de desfiles que aceleram a cadeia produtiva e passam a repensar seus modelos de apresentações. O online está cada vez mais presente e crescendo a cada dia. Consequências do isolamento social.



Revenge buying

Um fenômeno que está acontecendo na China e deve ocorrer em todos os países em escalas diferentes, é o do revenge buying, aquela aquisição que você vai fazer pra compensar todos os meses sem poder sair de casa. Como todas as compras por impulso, ela te garante satisfação imediata, mas talvez não passe disso.


Previsão do tempo

E o futuro ainda é incerto. Há especialistas que dizem que o consumo pós e durante a pandemia podem aumentar pelo fato de as pessoas “não estarem” consumindo em suas lojas físicas prediletas ou simplesmente agir por impulso por se sentirem desocupadas. Outros especialistas defendem a ideia de freio que o mercado precisava. Com toda certeza é um tempo que estamos repensando nossas compras e investimentos, que estamos vendo nossos guarda- -roupas e percebendo que muito do que temos não serve para nada, pois temos em excesso.

Posso estar enganado, mas vejo o mercado de aluguel de roupas, brechós (e lojas de desapego) com peças icônicas e o troca-troca entre amigos aumentar. Bem como profissões como personal shopper ou consultores de imagem, mostrando o que realmente precisamos para nos vestir. Mas como disse, ainda é um futuro incerto. Agora, uma coisa eu posso afirmar, a moda não poderá mais voltar como era antes. Se cuidem, usem máscara, valorize a moda nacional e aqueçam seus corações com energias positivas. Abraço impresso!


@potterisabelle designer e influencer com look combinadinho com máscara de confecção autoral / Desfile Saint Laurent realizado em Paris, antes da pandemia


Novo normal

Para a Vogue Brasil, por exemplo, o novo normal é ter o biótipo Gisele e vestir Prada e Chloé. Para falar a verdade, não era de se esperar menos de uma revista totalmente elitizada. Já para Marie Claire, o “novo normal” é destacar e enaltecer as mulheres que estão na linha de frente contra o novo coronavírus, como médicas. Ao meu ver, uma capa mais sensata e coerente para o que podemos chamar de “novo normal”.


AUTOR

Bruno Gerhardt

Colunista convidado da FV, é Designer, Criador de Conteúdo e Especialista em Moda.
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