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07/04/2021 papo cabeça

Fake ou news?

Fake News e alternativas para combatê-la

O termo 'fake news' teve seu uso potencializado nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, mas a circulação de notícias falsas data muito antes disso. para entender os impactos da disseminação de conteúdos ilegítimos e conhecer alternativas para combatê-la, conversamos com a doutoranda em comunicação social, Ana Paula Bourscheid, que desenvolve a tese intitulada “Purposeful game aplicado ao combate à desinformação contemporânea".


Flash Vip - Através de quais aspectos é possível identificar uma notícia falsa?

Ana Paula Bourscheid: Sempre desconfie do que se recebe e preste muita atenção na origem do conteúdo. Qual a fonte? Quem é o autor? Se a autoria não estiver clara, quando ele foi feito e em qual contexto surgiu? Muitas vezes, conteúdos desinformativos têm títulos bombásticos, nem se lê o texto e já se compartilha. É importante ler do começo ao fim, analisar se há erros ortográficos e uso exagerado de adjetivos e pontuações. Outro fator é a data de publicação do conteúdo. Está atualizada? Notícias antigas, muitas vezes, são reproduzidas como se os fatos fossem recentes. Sabe aquela coisa que é muito boa para ser verdade? Pesquise em outros sites. Quando são questões da área da saúde, procure a informação em sites especializados, como de instituições de ensino e dos órgãos oficiais. Não se deve compartilhar um conteúdo por impulso. Muito cuidado para não ofender e prejudicar ninguém, desinformar-se ou desinformar alguém. A rede não é um território sem lei, cada usuário é responsável por aquilo que publica e dissemina. 


FV: Em sua tese de doutorado, você identifica a necessidade de utilizar o termo ‘desinformação’ ao invés de ‘Fake News’. Por quê? 

AB: A expressão Fake News é utilizada, principalmente, por lideranças totalitárias para cercear a liberdade de imprensa. A notícia se caracteriza pela verdade, logo, o que é falso não pode ser considerado notícia. Isto é premissa básica da atuação no Jornalismo. O uso da expressão Fake News é uma forma de menosprezar o trabalho dos veículos de comunicação que são comprometidos e entendem sua função social. Autores mencionam que o termo desinformação surgiu na Rússia, depois da Segunda Guerra Mundial, e nesse período era compreendida como prática exclusivamente capitalista, que visava a sujeição das massas populares. Por conta de toda a história, entendo que esta expressão é a mais correta a ser utilizada no caso da desinformação que temos hoje, principalmente na internet, que circula nas redes sociais digitais.


FV: O que leva as pessoas a acreditarem em informações sem fundamentação científica ou de fontes inseguras e tendenciosas e a disseminá-las? 

AB: Estamos inseridos no contexto da pós-verdade, um ambiente em que são criados fatos alternativos à realidade. Temos uma manipulação de conteúdos muito mais sofisticada, que usa das emoções e motivações comuns das pessoas para influenciá-las e controlar o debate público. Assim, acaba-se criando verdades que são paralelas ao que realmente acontece e existe. Os indivíduos que criam estes conteúdos falsos e fazem com que acreditem neles, não negam os fatos, mas criam fatos alternativos a eles. Exemplo atual é a polêmica da ineficácia das vacinas contra a Covid-19. Cria-se fatos alternativos para questionar o objetivo e a eficácia. Conteúdos desinformativos sempre têm a ver com o cotidiano e atacam nossos pontos mais fracos. O que leva as pessoas a questionar o teor científico é o medo daquilo que não se conhece. Isso faz com que se fechem em uma bolha que pensa e concorda com pontos que elas também concordam. 


FV: Com as Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC’s – e o aumento do acesso à internet, as Fake News têm um alcance muito maior. Quais os impactos negativos da disseminação de conteúdos falsos? 

AB: A desinformação é muito perigosa, pois gera o caos desinformativo, que é quando não se sabe mais o que é verdade e o que é mentira. Isso tem feito com que os estados democráticos de direito entrem em crise e as pessoas não valorizam sua liberdade. Outro fato é a polarização, em que temos uma sociedade dividida entre lado A e B, dificultando o diálogo, e isso é um grande risco para a democracia. Sem diálogo, ficamos fechados dentro dos nossos quadrados, não conseguimos aprender com o diferente e evoluir. Sem discutirmos de forma saudável, não desenvolvemos o pensamento crítico. Outro fato negativo, e podemos perceber isso no contexto da pandemia da Covid-19, é que muitas pessoas não acreditam na veracidade do vírus. Por acreditar no que se julga verdadeiro a partir do senso comum, acaba-se perdendo nosso bem maior: a vida!


FV: Em sua tese, você defende o game como ferramenta aliada ao combate à desinformação contemporânea. De que forma o jogo contribui na redução das práticas desinformativas? 

AB: Primeiro, é preciso trazer o tema para o debate público. A desinformação só vai ser combatida se houver investimento em alfabetização midiática e informacional. Isso pode ser facilitado com o uso da ludicidade dos games. O ato de jogar tem uma finalidade clara: a distração, competição ou aprendizado. Por conta disso, se utiliza o recurso dos games, principalmente a categoria específica dos purposeful games, que são jogos com propósito – neste caso, o de conscientizar sobre a desinformação que circula nas redes sociais digitais. Entendo que os games têm muito a contribuir nesse processo, justamente pelo fato de que podem auxiliar na educação dos jogadores quanto a necessidade da alfabetização midiática e informacional em relação aos conteúdos que são consumidos de forma direta ou indireta na internet, em especial nas redes sociais digitais.

AUTORA

Mirella Schuch

Futura jornalista. Curiosa e amante da escrita.
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