Receitas afetivas ajudam imigrantes a reconstruir identidades e manter viva a relação com suas raízes em Chapecó
Quando a saudade da Venezuela apertou o peito de Julio Francisco Pérez Jadio e da esposa Paula Eurea, em 2023, ele tomou um milk-shake de leite condensado tentando lembrar dos bons tempos que vivera antes do colapso econômico atingir em cheio o país, em 2015.
A decisão de deixar a casa e viajar mais de 8 mil quilômetros em busca de um recomeço para a família, em 2022, não era o sonho de quem cresceu pelas ruas do Estado de Bolívar, mas, um ano depois, parecia ter sido a escolha certa.
Assim como na infância, voltava a ser inundado por uma doce sensação de paz, acompanhada da certeza de que tudo estava bem. Momentos assim precisavam ser celebrados e, para Julio, a única confraternização possível precisava ter o gosto, a textura e o cheiro de casa, que só uma chicha venezuelana poderia oferecer, por isso a preparou.
Bebida gelada feita à base de macarrão cozido, leite, gelo, açúcar e coberta com leite condensado e canela, a chicha carregava o gosto de uma vida feliz, o cheiro das ruas e o toque do abraço fraterno que ficou tão longe.
A sensação experimentada por Julio não é apenas metafórica. Segundo a Associação Brasileira de Neurologia (ABN), alimentos que atravessaram a história individual permitem ao cérebro disparar ondas químicas que ativam a memória e o bem-estar, mesmo quando consumidos anos depois. Chamados de “alimento de conforto”, eles carregam memória e identidade, sendo capazes de “transportar” quem os consome para o ambiente em que foram introduzidos na nutrição, com todas as sensações que marcaram esse momento.
Mais recentemente, esse fenômeno passou a ser estudado pela Neurogastronomia, que apontou, inclusive, que o simples ato de pensar nesses “alimentos de conforto” pode criar um efeito semelhante.
A ideia surgiu quando neurocientistas, especialmente o professor Gordon M. Shepherd, mostraram que o sabor não depende só da língua, mas principalmente do cheiro que sobe da boca para o nariz na mastigação. Esse cheiro vai para o cérebro e lá é combinado com o gosto, a textura e com o que é vivenciado.
Isso ocorre, segundo o doutor em Neurologia e presidente da ABN no Distrito Federal, Eduardo Uchôa, porque todos os sabores conhecidos foram criados pela mente, uma vez que nenhuma comida possui um “sabor próprio”. A construção do sabor, conforme Uchôa, acontece no cérebro a partir da soma de três fatores, do ponto de vista neurológico: o gosto básico (doce, salgado, azedo e amargo), mais o cheiro e a avaliação feita pelo cérebro do indivíduo diante daquele alimento, podendo ser agradável ou não.
“É por isso que um bolo da avó ou uma comida típica de infância pode trazer de volta um momento, uma pessoa ou até um lugar. O cérebro guarda junto o cheiro, o sabor e o contexto afetivo — e, quando sentimos de novo, ele ‘puxa’ tudo”, esclarece.
Dessa forma, a reação alimentar está diretamente ligada à própria formação da identidade humana. Uchôa afirma que isso explica porque é possível se sentir em casa e no lugar de origem apenas consumindo alimentos marcantes. “Sabores e cheiros que conhecemos desde cedo são mais facilmente aceitos e mais carregados de significado (...) Por isso, comida típica pode dar sensação de pertencimento: ela lembra quem somos e de onde viemos”, frisa.
Por essas razões que apenas uma chicha venezuelana faria bem a Julio naquele ano de 2023. Hoje, aos 33 anos, ele e a esposa transformaram a bebida em fonte de renda, aproximando o casal e a comunidade venezuelana de Chapecó de suas origens.
“A chicha era uma bebida de quando o país estava bem. Depois da crise, não dava mais para comprar”, recorda-se, sentado em um banco do Terminal Central, onde ele e a esposa comercializam a bebida. “O que não pude fazer por anos, agora posso. E a chicha me lembra isso: As coisas estando bem, como estão agora”, enfatiza o vendedor.

E Julio não está só nisso. Sendo Chapecó a cidade do Estado de Santa Catarina com a maior presença de imigrantes, de acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a busca pelas origens por meio da alimentação encontra eco em outras mais de 23 mil histórias de quem deixou o país para morar na capital do Oeste. Essa conexão com as raízes se revela em bebidas, temperos, pratos e até verduras que cumprem o papel de transmitir o conforto com gosto de casa.
A nutricionista Fernanda Confortin, especialista em Nutrição Humana e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação e Nutrição (Nepal) da Unochapecó, destaca que, para além de um papel nutricional, essas comidas preservam as origens de cada indivíduo por meio de uma sensação de pertencimento.
Isso está alinhado ao apresentado pelo Guia Alimentar da População Brasileira, que afirma que comer é um ato biológico, social e cultural.
“Alimento é uma linguagem de pertencimento”, emenda a nutricionista. “As receitas transmitidas entre gerações carregam memórias, valores e histórias familiares. Preparar uma polenta, um feijão bem temperado ou um chimarrão é um modo de manter viva a identidade cultural e emocional”.
Do primeiro alimento, o leite materno, à comida de conforto, há um caminho marcado por sabores e vivências únicas, que ativam neurotransmissores como serotonina, dopamina e endorfina, promovendo prazer e relaxamento.
Foi plantando lalo, por exemplo, que o engenheiro agrônomo Bachelor Louis, de 32 anos, reviveu sua conexão com o Haiti. Natural de Gonaïves, quarta maior cidade do país, sua mãe mantinha uma grande horta na qual o lalo, uma hortaliça com aspectos semelhantes ao espinafre, ocupava a maior parte.
A cada aniversário, o lalo era servido em generosas porções refogadas com carne de gado, arroz e feijão branco. Bolos cobertos com creme não participavam da tradição, enquanto o lalo era protagonista. Ao chegar ao Brasil no ano de 2013 em busca de estudos, perdeu o alimento marco de celebração, o que só mudou dois anos mais tarde.
Nesse período em Chapecó, junto de outros amigos haitianos, tentaram reproduzir o prato utilizando alface. Seguiam o mesmo rito: a refogavam e serviam com carne de gado, arroz e feijão branco. Mas, ao tocar a boca, não sentiram o sabor agridoce e tampouco foram transportados para casa.
Ao visitar um colega, em 2015, seus olhos saltaram ao perceber que, em um cômodo da casa, o amigo cultivava o lalo. Bachelor via mais que uma hortaliça ali: enxergava um fragmento do Haiti em plena Chapecó.
Com o plantio limitado e em pequena escala no país, Bachelor conseguiu algumas sementes. Plantou em um espaço de dois metros quadrados em sua casa, esperou crescer, reuniu os amigos e, de forma gastronômica, viajaram de volta ao Haiti com o passaporte carimbado por um prato. “O lalo lembra o carinho do Haiti. Representa a conexão de um povo com sua terra”, enfatiza.
Bachelor transformou o plantio em objeto de estudos na Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), onde se formou e onde até hoje há uma estufa com mudas, além de um negócio. Mas, para o engenheiro, o lalo vai muito além de lucro.
Hoje, ofereço isso a imigrantes haitianos de diversas partes do Brasil, inclusive para que crianças que nasceram aqui conheçam sua cultura de sangue”, afirma, com o largo sorriso de quem sente estar cumprindo uma missão.

Para quem cresceu em Chapecó, a comida de conforto mora em raízes locais. Aos 63 anos, Moacir Sabadin, bisneto de italianos que chegaram ao município na década de 1950, carrega a tradição da família por meio da agroecologia aplicada ao cultivo da uva, cana-de-açúcar, feijão e outras verduras e frutas. De todas essas, é o doce de cana-de-açúcar que o faz reviver a infância ao lado do pai, bebida a qual recorre toda vez que busca conforto.
“Meu pai plantava”, relembra os primeiros anos da vida na Colônia Cella. “Ele produzia cachaças na época. Tivemos uma relação muito forte com a cana-de-açúcar desde cedo. Além de nós, ela era plantada na vizinhança, mas, aos poucos, a soja foi tomando espaço junto dos agrotóxicos e nós optamos por resistir”.
Essa resistência citada por Moacir se deu ao longo de toda a vida, com o cuidado do alimento plantado na terra. Uma relação íntima que revela amor ao alimento. E foi o próprio Moacir quem, por volta dos 12 anos, sugeriu ao pai vender produtos derivados da cana-de-açúcar, ocupando espaços em feiras, enquanto o caldo ocupa um espaço eterno em sua memória.
Hoje, Moacir, a esposa Ivani Maria Sabadin e duas das três filhas vivem da agricultura familiar, com a cana-de-açúcar como carro-chefe. Na sua propriedade, são cultivados 12 tipos de cana, mas, para o agricultor, o sabor único de um caldo livre de veneno é o que nutre sua identidade e tradição.

Mas quando se fala sobre identidade por meio da alimentação, a nutricionista taiwanesa Chen Chaoyi, de 35 anos, tem uma perspectiva diferente. Isso porque o alimento que atravessa sua história não é um, mas vários com critérios semelhantes: todos livres de carne em seus ingredientes.
Herança direta da mãe, Kao Chun Kan, Chaoyi cresceu com uma tradição vegetariana na família, tanto em Pingtong, cidade taiwanesa onde nasceu, quanto em Chapecó.
Não era difícil encontrar opções vegetarianas em Pingtong. Taiwan é considerado um dos paraísos para quem vive esse estilo de vida, possuindo a terceira maior população mundial de vegetarianos, correspondendo a 13% dos habitantes. O choque, para Chaoyi, veio em 2008, quando retornou a Chapecó para ficar.
Diante de um gargalo na cidade para esse tipo de estilo de vida, Chaoyi fundou um restaurante voltado ao público vegetariano após se formar em Nutrição.
“Mais do que comida de conforto, comida é conforto”, dispara a nutricionista. E, para ela, isso tem tudo a ver com a mãe. “Reunimos a família e reproduzimos tradicionais sopas de Taiwan, que vêm com três acompanhamentos: arroz, ovo e um salteado de legumes. Isso me lembra conforto. Enquanto o vegetarianismo me lembra quem eu sou”, enfatiza.
No restaurante, que conta com uma variedade de pratos, o toque taiwanês se mantém presente por meio dos temperos livres de cebola e alho, comumente associados à mesma experiência do consumo da carne segundo o budismo — filosofia à qual Chaoyi não é adepta, mas incorporou — e produtos importados, para que o lugar tenha cheiro e gosto de casa.

Mas a alimentação de conforto não pode ser confundida com uma válvula de escape, alerta a médica nutróloga Giseli Albach Lenz. Alimentação é um processo que exige respeito em todas as etapas e, nesse sentido, ela defende a necessidade de se retornar ao simples.
Atuando em um Centro Especializado de Reabilitação, onde são oferecidos serviços de nutrição à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), ela identifica uma mudança de comportamento alimentar que pode colocar em xeque a manutenção dos alimentos de conforto nas histórias individuais.
A rotina desgastante tem gerado, em muitas famílias, uma procura crescente por alimentos industrializados e fast foods entregues rapidamente em casa. Geralmente, lanches hipercalóricos, com o resultado se refletindo em crianças que já apresentam sinais de obesidade.
Sem o preparo familiar, sem a mão na massa, sem o cheiro vindo das panelas inundando a cozinha e criando memórias, ela questiona: "Qual será a alimentação de conforto das novas gerações?”. A especialista faz um apelo para que, no seio familiar, haja a preocupação de criar memórias afetivas por meio da gastronomia e, para isso, destaca que não é necessário um prato elaborado com requintes da alta gastronomia, mas o simples feito com afeto.
“No Brasil, temos o feijão e o arroz que nos garantem uma refeição completa em nutrientes. E, quando a família se une para produzir um prato, ela não está apenas preparando uma refeição, mas preparando memórias e nutrindo a vida”, enfatiza.
O estudante em Ciências da Computação Sandro Ferreira, de 35 anos, concorda. Ele é indígena do povo Tikuna, o mais numeroso da Amazônia, que habita as margens do rio Solimões, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Cresceu na aldeia Umariaçu II, com uma população estimada de 5 mil pessoas, já inserida em contexto de urbanização. O próprio nome da comunidade revela o respeito aos alimentos naturais, uma vez que “Umariaçu” deriva de “Umari”, fruto pequeno e adocicado da região.
Ele está em Chapecó com a esposa, Elayna Campos Manduca, de 35 anos, e os dois filhos, desde 2022. Ambos estudam na UFFS e, desde que chegaram, Sandro diz estar à procura da comida que lembra seu povo.
“Os indígenas sempre foram um povo da caça, pesca e agricultura. Temos comidas tradicionais que envolvem um preparo feito na hora com produtos frescos escolhidos na hora”, enfatiza.
Um desses pratos que busca manter em Chapecó é o mojica. Feito à base de peixe cozido com verduras em um caldo de banana verde ralada e, como todas as refeições, acompanhado de farinha de mandioca. A diferença entre o contexto amazônico e o catarinense está no acesso limitado aos produtos com a mesma qualidade encontrada em sua comunidade.
Em uma casa que vende produtos do Norte do país, Sandro mantém um substituto do que faziam em sua aldeia, em uma busca por se reconectar com suas origens.
“Mas tenho medo”, confessa. “Medo de que meus filhos mergulhem nas comidas industrializadas e percam o costume, a raiz, a tradição. A cultura indígena se mantém viva com sua língua, alimentação e modo de viver. Manter isso é fundamental para que não nos esqueçamos de quem somos”, enfatiza.
Sandro tem o plano de retornar ao seu povo após se formar para lutar contra os impactos da vulnerabilidade que atingem a região. Pensa agora em mudar de curso e fazer Medicina ou Enfermagem, mas, antes, planeja criar um plano de alimentação para indígenas do Norte que migraram para Chapecó.
“Fui um dos primeiros três estudantes Tikunas que chegaram à universidade. Me senti vazio sem o peixe fresco e a farinha de mandioca ralada e preparada na hora. Poder oferecer essa conexão por meio da alimentação pode ajudar outros estudantes a sentirem seu contexto de origem”, salienta.
Ao olhar para a sociedade chapecoense e identificar a proporção em que a alimentação natural está sendo deixada de lado para que os industrializados substituam as prateleiras de casa e os pratos do almoço, Sandro aconselha: “Os não indígenas precisam aprender com os indígenas. Voltar a uma culinária natural precisa estar na essência da vida: fazer na hora, servir na hora e comer na hora”, e, como alguém que busca passar adiante uma herança ancestral para preservar a existência, diz: “A comida precisa ser para a alma. E isso é muito mais que nutrição, é pertencimento”.

Lançado em novembro deste ano, o e-book “Sabores na Mala” reúne receitas e memórias de cinco imigrantes que vivem hoje em Chapecó. Proposta por Bruna Deitos, Carla Chiavini e Luiz Antonio de Rê, a publicação usa a alimentação como porta de entrada para falar de identidade, deslocamento e adaptação nas migrações modernas.
A cada receita compartilhada — vinda da Venezuela, Argentina, Taiwan, Haiti e Colômbia — aparece também uma história de vida.
Os autores explicam que a comida permitiu um diálogo mais leve sobre a imigração contemporânea, marcada pela chegada intensificada de novos moradores desde os anos 2000. “A comida está em destaque em diferentes aspectos de uma sociedade. É um gancho orgânico para falarmos sobre outras camadas do assunto”, afirma Carla, proponente do projeto.
Nas entrevistas, sabores se ligam diretamente à memória. A haitiana Velouse, conta Bruna, escolheu um prato típico de casamentos e festas de 15 anos, revelando que preparar a receita, mesmo com adaptações, é também um modo de permanecer conectada ao país de origem. Para o fotógrafo Luiz de Rê, esses relatos mostram que as receitas funcionam como conforto e reafirmação de identidade: “São uma maneira de matar um pouquinho da saudade”.
Os autores destacam que conhecer essas histórias evidencia como a cultura local também se rearranja para acolher quem chega. “A cultura é um processo dinâmico”, observa Bruna. E, na cozinha, onde temperos mudam, ingredientes são reinventados e conversas se alongam, essa transformação fica visível.
O e-book, contemplado em um edital local, está disponível gratuitamente, com audiodescrição, no link bit.ly/saboresnamala e pelo QR Code no Instagram @sabores.na.mala.
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Revista Flash Vip, contando histórias desde 2003.