Fragmentos de uma bandeira dissolvida no ar
Centenas de aviões decolam em curva rumo à saída. Coloridos, “os verdes são as nossas matas, os amarelos são as nossas riquezas, os azuis são as nossas águas e os brancos, a ordem e o progresso”. Aqueles em terra firme estão dispostos em perfeito alinhamento, alguns que parecem voltar ou ficar, outros que parecem preparar para decolar, levando tudo embora.
A instalação Amor à distância do artista Motta (Joinville/SC) foi apresentada pela Rede Sesc de Galerias e esteve em Concórdia/SC nos meses de agosto e setembro de 2022. Com curadoria de Gleber Pieniz, a obra é um convite para refletirmos sobre a nossa própria história recente. A montagem lúdica e alegre logo é absorvida pela frase “Brasil: ame-o ou deixe-o” – utilizada pelo general Emílio Garrastazu Médici como forma de repressão e censura à oposição – e o sorriso logo murcha.
Foi isso que senti na primeira vez que tive contato com a proposta do Motta. E seguiu assim pelos próximos 15 dias que estive na galeria, mediando as visitas e os sorrisos que murchavam lentamente enquanto as divagações preenchiam o lugar. A primeira vista é muito bonita, é lúdica, é colorida, é grande. Quando caímos na real sobre o que a exposição quer nos falar, o sorriso murcha, pois o teor é mais profundo do que a estética. Sempre que uma turma chegava, geralmente composta por crianças, a admiração pelo trabalho técnico do artista era o primeiro sentimento dito. A vontade de tocar os aviões suspensos era consequência da euforia causada por tantos “brinquedos”. Por que eles têm tamanhos diferentes? Para onde eles estão indo? O que significa exílio? Quanto o artista gastou com tudo isso? Nossa, é a bandeira do Brasil!
Depois da primeira impressão, sentávamos todos no chão, formando um grande círculo. Muitos braços erguidos, muitas cabecinhas fervilhando, todo o interesse agora estava em entender a mensagem que a obra expressava. Pouco a pouco construímos uma relação de entendimento e desentendimento com a provocativa temática, com um público que ainda não conhece o passado recente do Brasil. Com outros grupos, aprofundamos ainda mais nossas inquietações e, partindo da ditadura militar, passamos pela discussão sobre cultura, diversidade, território, censura, massacre dos povos originários, colonialismo, política e eleição. Um novelo que se desenrolava e que seguia esticando o fio até a fronteira do entendimento de cada um. Depois dali, é só um passo.
Sem dúvida alguma, esses diálogos me fizeram ainda mais brasileiro. Amor à distância é sobre o Brasil de hoje, com respingos do passado e um plano de voo incerto para o futuro.
Artêmio Filho
Colunista convidado da FV, é administrador, produtor e gestor cultural de Concórdia, na Sabiá - Gestão Criativa