Home > especial > A arte do prazer
05/04/2022 especial

A arte do prazer

Liberdade e sensualidade, inquietação e mistério, exibição e voyeurismo, sugestivo e explícito. O que nos atrai na nossa forma mais íntima e as nuances que nos fazem querer observar sempre um pouco mais.

Desde que o mundo é mundo, a sexualidade permeia a mente humana. O corpo, quando visto com carga de erotismo, é rodeado de tabu e, dependendo da forma – e da época – em que é expressado, esbarra nas barreiras do pudor.

Na arte, por exemplo, essa erotização encontra uma maneira de provocar e despertar reações. Das representações de Vênus, a deusa do Amor – seja a de Willendorf, esculpida em calcário cerca de 25 mil a.C., ou a de Milo, feita em mármore na Grécia antiga e hoje exposta no Museu do Louvre, em Paris –; às xilogravuras shungas do Japão de 1800, com a polêmica metáfora imaginativa de Katsushika Hokusai; ou em versão mais sutil na famosa Les Demoiselles d'Avignon de Pablo Picasso, em 1907; passando pelos homens viris e musculosos vestidos de uniforme e couro de Tom of Finland, nos transgressores anos 1960.

A questão é que o corpo e o sexo, sejam endeusados ou objetificados, se manifestam nas fantasiais, e não é de hoje. A interpretação dos corpos, do ato sexual, do êxtase, do desejo e da luxúria, do que muitas vezes era proibido e mal visto, é tão antiga quanto a própria civilização. Muito do que foi considerado impróprio há alguns anos, hoje é visto como arte e ganha caráter cult.

Chegando à contemporaneidade, o conteúdo erótico continua despertando interesse e curiosidade, trazendo à tona desejos, por vezes ocultos, e a tela do computador se torna o cavalete. Um meio para um fim. O local no qual os corpos serão exibidos com erotismo e rentabilizados, como objeto de admiração e desejo de outros.

O íntimo e sensual, que já era compartilhado nas mídias sociais pelo prazer da exposição, passa a ter caráter comercial e se tornar fonte de renda. Foi o que aconteceu com @jahgirl*, de 23 anos, que viu na produção de conteúdo adulto para a internet uma alternativa ao desemprego durante o período de pandemia. Há seis meses com a sua conta ativa no site brasileiro Privacy, a gaúcha radicada em Chapecó conhecia garotas que trabalhavam com a plataforma, escutou suas opiniões, pesquisou a respeito, pesou os prós e contras e decidiu iniciar a carreira de modelo adulta. “Num primeiro momento, me senti bastante insegura. Sempre tive referências femininas de todos os cantos, então me baseei em mulheres que admirava. Tenho a autoestima muito baixa, e fazer isso tem me ajudado bastante. Sempre tem as pessoas sem noção na internet, mas nunca fui desrespeitada, e confesso que isso me deixou até surpresa, porque quando começamos a trabalhar com esse tipo de coisa, não esperamos muito, pois tem um preconceito que vem junto – tanto que a minha família não sabe que eu trabalho com conteúdo adulto”, relata a modelo.

Sua principal plataforma é o Privacy, mas ela também possui conta no site britânico OnlyFans. Ambos funcionam basicamente da mesma forma. O produtor de conteúdo passa por uma verificação de documentos para checar a veracidade da sua identidade e se é maior de idade, após a burocracia está apto a utilizar a plataforma. Os valores são estipulados pelo próprio dono da conta, criando pacotes com descontos para assinaturas maiores, e o site fica com 20% dos ganhos como taxa para manutenção, custos de processamento de saques, entre outros gastos. 

Um serviço on demand de venda exclusiva de qualquer tipo de temática, mas o que popularizou mesmo a plataforma – principalmente a mais famosa, OnlyFans – foi o teor adulto. Jah Girl produz o que ela chama de “conteúdo soft”, com ensaios fotográficos e vídeos sensuais, e tem em sua gama de assinantes, muitos de seus amigos e conhecidos. “Achei isso incrível, porque nunca passou pela minha cabeça que eles me apoiariam a ponto de gastar dinheiro para ver esse tipo de conteúdo vindo de mim. Uma vez perguntei a um amigo o que o levou a assinar minha conta e ele respondeu ‘a curiosidade’. Então acho que depende muito de cada um. Penso que tem a questão de ser mais acessível, de poder conversar e ver alguém real fazendo isso. E quando é de alguém que você conhece, é um lado novo, uma camada oculta dela. Porque desde que a pessoa bateu o olho em você, ela está te sexualizando”, afirma. 

Apesar do apoio dos amigos, o mesmo não aconteceu no seu relacionamento amoroso, que terminou há alguns meses, quando se posicionou sobre focar na carreira de modelo adulta. Antecipar a reação da família também é um problema. Por enquanto, Jah foca em seus ensaios para ampliar o público e, consequentemente, a conta bancária. Mas consciente de que essas escolhas estarão sempre consigo.

“As pessoas que querem começar a criar conteúdo precisam pesar muito as suas ações, porque a partir do momento que você está na internet, está correndo muitos riscos. Vi meninas que se deram bem, assim como outras que se arrependeram muito. Já ouvi piadinha maldosa e é aquela questão de filtrar. Tenho em mente que se a pessoa está dando dinheiro para me criticar, estou no lucro. É a minha forma de lidar com isso. Cabe a você decidir por si e priorizar. Mas no fim das contas, estou ali produzindo esse conteúdo porque gosto de ser uma mulher exibicionista, gosto de fazer isso e pretendo focar nessa carreira”.


Pelo buraco da fechadura

@bellani*, 33 anos, é apreciador de arte erótica e possuía uma conta no Tumblr onde reproduzia essa visão através de fotos próprias. Isso até a rede social censurar o conteúdo explícito. Desde então o chapecoense procurou outras formas de compartilhar seu material e, há três anos, quando morava em São Paulo, criou a sua conta no OnlyFans, a qual mantém até hoje. “Tem bastante preconceito, porque essa plataforma cresceu por causa de artistas da área pornográfica utilizarem para divulgar seus conteúdos. Hoje em dia ninguém vai mais à videolocadora alugar um filme pornô. A alternativa eram sites piratas, que vêm cheios de riscos, inclusive para o consumidor. Então a pessoa começou a ganhar com isso. É o corpo dela, a arte dela e por que não cobrar por isso?”, indaga.

Para ele, ao contrário do que muitos pensam, não basta tirar uma foto nu e postar na rede para ganhar dinheiro. Exige muito trabalho, visão, curadoria, conteúdo e divulgação para atrair seguidores. “Me sinto bem, faz bem pra minha autoestima, sou eu fazendo arte com o meu corpo, e assim aprendi a admirar muito mais a mim mesmo. E gosto também de mostrar um corpo tatuado, que geralmente é marginalizado. Já recebi desenhos de fotos minhas de artistas de Nova York, Londres e Itália (uma delas, inclusive, ilustra a capa desta edição e abertura desta matéria)”, conta o modelo.

Mas nem tudo são rosas. Vivendo em uma sociedade conservadora e machista, a escolha de mostrar o físico para ganho próprio vem carregada de uma série de julgamentos. Com o corpo repleto de tatuagens, Bellani diz que as piores situações pelas quais passou foram fora do mundo virtual.

“Já aconteceu de estar andando na rua e um pai cutucar o filho, apontar para mim e dizer ‘olha o bicho’. Isso é horrível! Foi algo que me deixou muito mal. As pessoas estão tão preocupadas com o que os filhos vão se deparar na internet, quando os próprios valores dentro de casa são passados errados. O problema não é o que você tem acesso, mas como te ensinam a lidar com isso”, opina.

E Bellani tem discernimento que o simples fato de ser homem, já ameniza muito da sua experiência com o trabalho adulto. “O machismo é absurdo. Não só nas redes sociais, mas em qualquer lugar. Mulher sofre muito mais e o homem heterossexual a trata como um objeto e, como se não bastasse, tem outras mulheres apontando como uma coisa suja. Acho bem pesado. As meninas têm que ter estômago para receber certos comentários. E é uma hipocrisia enorme, pois o Brasil é o país que mais consome esse tipo de conteúdo e também o que mais critica. Taxar como algo feio e sujo está na cabeça de quem julga, e o que você fala de mim diz muito mais a respeito de você”.

Mas, como diz o modelo, é uma jornada de autoconhecimento a qual deve ser realizada com total consciência das consequências. “Se você for fazer apenas para ganhar dinheiro, você vai se machucar e vai carregar isso por um bom tempo. Só faça mesmo se é algo que você quer, pois aquilo estará gravado, é como uma tatuagem, estará com você para o resto da sua vida”.


Empoderamento X Objetificação

O pesquisador equatoriano Danilo Rosero Fuentes publicou um artigo em 2021, na Revista Ciencias Sociales, intitulado Notas sobre la precarización digital en tiempos pandémicos: un acercamiento a la red OnlyFans (em tradução livre Notas sobre a precariedade digital em tempos de pandemia: uma abordagem à rede OnlyFans), e nele faz uma pesquisa com base no que chama de “economia das plataformas”, pensando nas relações de trabalho e prestação de serviço em formato online. O trabalho é citado pela professora de Sociologia da Universidade Federal da Fronteira Sul, Rubi Garcia Vieira, que vê essa forma de trabalho relacionada a uma tendência intensificada durante a pandemia, onde a precarização recai, sobretudo, na vulnerabilização da mulher. “Ao mesmo tempo que há um tabu em torno da sexualidade, especialmente a sexualidade da mulher, em que uma sociedade como a nossa cria preconceitos contra esse tipo de expressão, as pessoas entram na plataforma, pagam pelo conteúdo e ainda têm uma visão crítica sobre o que estão consumindo. Mas vejo como uma forma de dominação das mulheres. Porque se a mulher acessa o mercado de trabalho também a partir do seu corpo, ou seja, a forma como ela é percebida enquanto objeto sexual de homens, isso faz com que, de alguma maneira, a sua participação esteja limitada a uma visão que o mundo tem sobre o seu corpo”.

Para a professora, essa questão faz com que o empoderamento feminino seja seletivo e desigualmente distribuído, no qual pessoas que apresentam o padrão de beleza socialmente instituído têm seu corpo mais “vendável” que outros.

“É um paradoxo, o preconceito contra a sexualidade feminina e a forma como a visão dominante sobre o corpo da mulher tende a inferiorizá-lo socialmente. Pois se não houvesse essa inferiorização, por que haveria o preconceito? E também vale o questionamento, quando o empoderamento tem ganho econômico, ele é diferente?”, provoca a socióloga.

O cineasta italiano Bernardo Bertolucci (1941-2018), disse em uma das entrevistas do lançamento do seu filme Os Sonhadores (2003) que “já não se pode conseguir a transgressão porque já não existem tabus”. Mas existem, senhor Bertolucci, ah, se existem… A modelo @ivymoon*, de 22 anos, sabe bem disso. Há três anos, a gaúcha encontrava-se insatisfeita com seu trabalho no comércio e se deparou com um anúncio para trabalhar com shows ao vivo pela webcam. Com o interesse desperto, pesquisou sobre o assunto, assistiu vídeos e se jogou de cabeça. “Sou de uma cidade pequena, então não demorou para as pessoas descobrirem e se afastarem, perdi muitos amigos e ainda sofro muito julgamento. E, infelizmente, isso é normal, são os ossos do ofício, pois trabalhar com sexo ainda é muito tabu. Hoje, penso que tem algumas coisas que faria diferente, teria esperado até me sentir mais confortável, mas acredito que tudo aconteceu como deveria, apesar das consequências”, reflete.

Em um mês de trabalho, Ivy já contou para a sua mãe, da qual recebeu apoio. A reação negativa e até agressiva de algumas pessoas as quais considerava amigas, fez com que a modelo fosse mais seletiva nas suas relações pessoais, mas isso não apaga o que sofreu (e ainda sofre) com o julgamento alheio.

“É complicado falar de maturidade para lidar, porque é algo novo, você nunca viveu isso e não tem um manual te dizendo como agir e sentir. Precisa sentir na pele, sofrer, para aprender como lidar. São situações que você nem imagina que vai passar. Qualquer tendência que você tiver de depressão e ansiedade, pode desencadear com isso. É muito solitário. As pessoas não têm noção do que passamos no dia a dia. Você vai ter poucos amigos para conversar e algumas colegas que podem te entender, então recomendo fazer terapia, porque às vezes sozinho você não vai conseguir manter a cabeça no lugar, pois é um meio que pode ser muito tóxico”, recomenda.

Ivy se divide em seus quatro trabalhos, na plataforma OnlyFans, como camgirl no Câmera Privê, recentemente se tornou uma Suicide Girl (maior site de modelos alternativas do mundo) e também dá cursos para garotas que querem iniciar ou aprimorar shows pela webcam. “Tenho a minha rotina, meu horário de fazer cada coisa, um dia na semana que escolho descansar e não acessar nenhuma rede e nenhum site. Porque tem a questão do enclausuramento. Quem trabalha com câmera ao vivo, principalmente, fica num quarto por muito tempo, então você fica fechada na sua bolha, no seu mundo, e até esquece que tem uma pandemia acontecendo”.

E quando você está vivendo um personagem como parte do seu trabalho, fica difícil de separar essa pessoa do seu eu real. Pelo menos é isso que relata Ivy, que já recebeu inúmeras propostas, das mais diversas e inusitadas, de seus seguidores. E para ela, dentre as transformações em suas diversas personas, uma coisa é certa: é imprescindível ter certeza das suas escolhas. “Não acredito que isso seja algo passageiro. Tem pessoas que vão fazer para testar por um tempo, mas tem outras que, assim como eu, se tornarão uma empresa e farão disso a sua principal fonte de renda, sem previsão de parar. Mas a gente sabe que a internet não para, que o conteúdo vai continuar ali. Então é preciso estar ciente. Estou preparada para isso, que quando quiser parar, vou recomeçar a minha vida sem esse personagem, sendo apenas eu”. Enquanto isso, seguimos apreciando a arte que é o corpo humano. 


*nomes de usuários dos modelos em suas respectivas plataformas de conteúdo adulto

Ilustração: Fab | @silver_wolf80

AUTORA

Carol Bonamigo

Jornalista, especialista em Cinema e Realização Audiovisual, viciada em cultura pop e enófila de carteirinha.
LEIA TAMBÉM