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11/04/2022 responsabilidade social

É ela!

Participação histórica de Lina no BBB22 trouxe luz à luta por respeito e aceitação de pessoas trans

Na edição deste domingo (12) do Big Brother Brasil, Lina, mais conhecida por seu nome artístico Linn da Quebrada, foi eliminada com 77,6% dos votos. Durante o discurso de eliminação, o apresentador Tadeu Schmidt deu ênfase à histórica participação de uma travesti no maior reality show da TV brasileira, que não apenas serviu como espelho para milhares de pessoas transexuais que nunca nem sonharam em se ver representados desta maneira na televisão, como trouxe inúmeros aprendizados, muitos deles infelizmente resultantes de situações causadas pelo uso incorreto de seu pronome ou nomes pejorativos, mas que ainda assim deixaram sua lição.

“Não foi só o Junior que você matou, Lina”, disse Tadeu em referência à transição de quem Lina antes não se reconhecia para a mulher que hoje se orgulha de ser. “Você matou também um bocado de preconceitos. E para conseguir isso, Linn não teve que bradar, ela apenas aceitou se expor, inteira, por inteiro, inteiramente”.  Por conta dessa exposição, tanto o apresentador quanto o público que comenta o programa na internet precisaram, em mais de uma ocasião, posicionar-se para pedir algo que para uma pessoa cis, aquela que se reconhece com o sexo biológico que nasceu, garante com maior facilidade: respeito.

Gênero, sexo biológico, identidade. Tudo parece tão difícil de entender, mas por vezes até mesmo o mais simples é deixado de lado em nome dos “bons costumes” e “convicções pessoais”, que é o respeito a como outra pessoa deseja ser tratada. Esta foi a pauta da reportagem especial da edição #71 da revista Flash Vip, publicada em 2015 e intitulada “Questão de Gênero”, que simplifica: com base no Dicionário Transgênero da psicanalista Letícia Luz, sexo é anatômico, é como nascemos e o que diferencia machos e fêmeas em uma espécie. Gênero é  o conjunto de papéis sociais impostos aos indivíduos em função do sexo biológico com que nasceram. Mas isso não quer dizer que um está diretamente atrelado ao outro.


Transformação de dentro para fora

“A pessoa nasce mulher e, em determinado momento da vida, se sente desconfortável no próprio corpo e a performance que esse corpo deve ter na sociedade. Começa, então, a se identificar com desejos diferentes daqueles determinados pela cultura como da mulher, sentindo-se incomodada com a forma como o perfil de gênero dela atual é entendido”, explicou Murilo Cavagnolli, mestre em psicologia. A partir disso, a pessoa passa a adotar uma estética corporal de acordo com a performance de gênero desejada. Entretanto, em uma sociedade em que esta compreensão avança a passos lentos, inúmeras barreiras são erguidas perante quem apenas deseja ser quem é.

Até mesmo atitudes cotidianas, como escolher em que banheiro ir, são impactadas, como foi o caso de Henrique Machado. Na época da entrevista, com 20 anos, quando há pouco tempo havia entendido-se como homem transexual, revelou já ter apanhado de uma menina quando esperava na fila para usar o banheiro. “Não me deixou nem explicar. Foi muito constrangedor. E não foi a única vez”, contou à reportagem. Olhares de reprovação e tratamento hostil são apenas algumas violências sofridas por quem já enfrenta não se identificar com o próprio corpo. “Parece que você não se encontra, fica perdido. Não tem com quem conversar e ninguém te entende. No início, minha mãe falava para eu ser mais feminino, mas eu não conseguia”. 

Caio Colling também sabia o que era se sentir infeliz no próprio corpo, designado feminino ao nascer. Após começar a frequentar um grupo de transexuais em Curitiba, onde estudava, percebeu nos relatos as mesas angústias. “Depois comecei a ir à psicóloga e percebi que não estava assumindo o papel masculino que era meu, sentido desde sempre, por medo da reação dos outros”. Quando aceitou esse papel, as mudanças aconteceram naturalmente. Com o acompanhamento de psicólogos e endocrinologistas no processo de hormonioterapia, Caio começou a andar na direção de seus objetivos. 

Detalhes importantes na aparência, como o surgimento da barba, a voz mais grossa e a mastectomia – cirurgia para a retirada dos seios –, deram ao rapaz a tão aguardada sensação de liberdade. “Às vezes me olho no espelho sem camisa e sinto um amor muito grande pelo meu corpo. É como eu sempre quis ser”, relatou Caio, que viu este sentimento refletir também em sua família. Muito bem resolvido com a situação, o então estudante disse não se incomoda com a curiosidade despida do preconceito.  “Não tenho problema em esclarecer aos outros, pois sei que este assunto ainda é tabu. Só não gosto que me perguntem como eu era ou qual meu nome de registro. Eu sou assim, meu nome é Caio e ponto.O trans é apenas mais uma característica, como ser gordo ou magro, branco ou negro”.

Assim como Caio matou um "eu" em quem não se aceitava, e Lina matou Junior, ainda existe muito preconceito a ser desconstruído no Brasil. Isso porque essas batalhas internas só existem porque há julgamentos externos. Uma travesti aclamada em um reality campeão de audiência é um pequeno passo frente à realidade do país que, há 13 anos, é o que mais mata transexuais no mundo inteiro. O relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), que monitora dados levantados por instituições LGBTQIA+ globalmente, aponta que, entre outubro de 2020 e setembro de 2021, 125 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, 33% do total de casos no mundo inteiro. Que a passagem de Linn da Quebrada pelo BBB22 signifique vermos cada vez mais pessoas trans ocupando papéis em nossa sociedade, senão o de vítimas do preconceito.


Fotos: Reprodução / TV Globo e Divulgação/Twitter/@linndaquebrada

AUTOR

Fernando Bortoluzzi

Jornalista e explorador em busca de expansão e conexão.
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