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07/04/2021 guia cultural

Sagu, de Mariana Berta

Uma preciosidade literária feita em nosso entorno, o livro de Mariana Berta carrega uma crítica radical ao agronegócio e uma ode à vida campesina.

O livro de Mariana Berta, natural de Peritiba-SC, carrega em seu cerne uma crítica radical ao agronegócio e uma ode à vida campesina. São relatos de sua própria experiência familiar na lida rural diária, com destaque para a presença imprescindível das mulheres.


Assim começa o livro: “A estrebaria, lugar onde minha mãe tirou leite por mais de trinta anos, não era nem a nossa casa, nem era a escola que a gente estudava. Nela a gente não podia ser o que era em casa, muito menos o que era na escola. Era outra coisa”.


Uma breve entrevista com Mariana Berta, autora de “Sagu” 

FB: Sagu é uma sobremesa apetitosa que transita pelas mesas do Sul do Brasil. E o seu "Sagu", como é? 

MB: Apetitoso não sei, mas de comer com certeza, porque escrevi ele como quem cozinha. Escrevi o Sagu no entremeio da lida, tanto com a comida, quanto com a terra e com os bichos. Quando finalizei tecnicamente o trabalho, notei que meu teclado estava todo cheio de “craca”. Não escrevi ele com um espírito conciliador, de remediação das nossas mágoas históricas, do tipo “o vinho encontrou a mandioca e a paz reinou”. Muito pelo contrário, ele surgiu de um corpo social profundamente doente, que trata as suas feridas escondendo e maquiando toda a dor. E ferida inflamada não cura nunca.


FB: De que modo a sua experiência e memória aparecem neste livro? 

MB: Sagu foi forjado na relação profunda de estranhamento e pertencimento, nas sucessivas tentativas de construir comunidade longe de casa, trabalhando, estudando, aprendendo a me defender individualmente e coletivamente. Todo mundo acha que o êxodo rural afeta e incomoda estritamente o povo da roça, isso não é verdade. Sagu foi, entre muitas outras coisas, uma tentativa de resposta a tudo isso. Assumi meu compromisso com os meus e encontrei meu lugar na história, que não deixa de ser um campo de disputa, cultural sim, mas igualmente material, pois a gente precisa estar viva e dispor de infraestrutura para poder oferecer alguma resposta artística para o mundo.


FB: O livro tem um formato híbrido, composto por imagens e escrita. Como foi o processo de preparação de Sagu? 

MB: Eu prestava, desde sempre, muita atenção nos arranjinhos do jardim da minha mãe, da nona e das mulheres que me criaram. Muitas delas nunca leram um livro sequer, escrevem somente o necessário, não por isso deixam de ter uma relação muito íntima com a palavra. Além disso, sabem em qual lua se poda as roseiras, quanta luz que as samambaias gostam, onde fica mais bonito e feliz os gerânios... na minha cabeça aquilo era uma edição, os arranjinhos que elas organizam, que vão se transformando em cada ciclo.


AUTOR

Fernando Boppré

Colunista convidado da FV, é livreiro da Humana Sebo e Livraria, escritor e mestre em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina
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