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18/12/2020 guia cultural

O silêncio de Juan Rulfo

Juan Rulfo foi um venerado escritor mexicano cuja obra acabou se transformando em símbolo do chamado boom da literatura latino-americana. É conhecido por possuir uma escrita silenciosa e enxuta, capaz de falar do regional de uma forma profundamente univer

Rulfo seguiu à risca sua própria definição de que a escrita significa essencialmente cortar. Seus livros, além de poucos, são curtos. Ao longo de sua vida publicou somente dois livros: um de contos, Chão em Chamas (1953) e outro, um romance, Pedro Páramo (1955). Depois disso, Juan Rulfo ainda viveu muitos anos, mas, apesar das cobranças, não publicou mais. Levou o resto da vida se desviando de falar a respeito de novos livros de sua autoria, mesmo sem negar completamente que pudesse ainda publicar. Dava mil rodeios, diferentes desculpas, mas, na maioria das vezes, se justificava dizendo a frase “Eu tinha voo, mas cortaram minhas asas”. Até hoje não se sabe quem cortou, provavelmente tenha sido ele mesmo. 

Juan Rulfo chegou a anunciar que estava escrevendo um romance, mas pelo que se sabe, acabou abandonado. Depois de sua morte, em seu espólio foram encontrados somente meia dúzia de textos incompletos que não parecem formar uma narrativa. Foi por essa curiosa “potência do não” que Enrique Vila-Matas, inseriu Juan Rulfo como um dos pontos luminosos de sua constelação de bartlebys. Vila-Matas produziu um romance em que o mote é a procura de companheiros para o escrivão de Melville: aquele que quando incitado a fazer algo respondia com a frase “eu preferiria não”. Assim, percorre a história dos escritores que poderiam fazer, mas optaram por não fazer sua obra. No caso de Rulfo, Vila-Matas conta que quanto perguntando porque não escrevia mais, o mexicano simplesmente dizia que o seu tio Celerino, que contava a histórias, morreu, e por isso, se esgotara a sua fonte. Diz que quando menino acompanhava e escutava as histórias do Tio Celerino, que viajava para batizar crianças em lugares tão violentos que nem mesmo os padres tinham coragem de visitar. É difícil saber o que há de verdade nessas histórias: o tio Celerino realmente existiu? É uma ficção de Rulfo ou de Vilas-Matas? 

Como se não bastasse, a própria biografia é de Juan Rulfo é cheia de ambiguidades. Mas é fato que ele cresceu nos confins da província de Jalisco, e aprendeu sobre a arte do silêncio com o laconismo daqueles que viram de frente a morte e o desespero, seja pela aridez da vida, seja pela Guerra Cristera e a Revolução Mexicana que impactaram profundamente a região. Ao tratar de sua improvável erudição, Juan Rulfo dizia que o pároco de San Gabriel, Ireneo Monroy, responsável pela censura de livros, ao recolher tais obras, constituiu uma volumosa biblioteca, e que ao morrer, acabou sendo herdada por sua avó Tiburcia Arias. Assim, o pequeno Rulfo, proibido de sair de casa por causa da violência, cresceu lendo uma seleta coleção de obras proibidas. 

Rulfo também foi um atento ouvinte da sua gente, pois sua literatura dá voz à fala da região. Ainda assim, é preciso reconhecer que Pedro Páramo não é um livro simples de ser lido. São tortuosos os caminhos poeirentos que os leitores são levados na garupa de Juan Preciado que, após prometer para sua mãe no leito de morte, busca a história de seu próprio pai. Logo que entramos na cidade de Comala começamos a ouvir vozes e sussurros de diferentes personagens que contam a história do lugar através de narrativas contraditórias sobre a vida de Pedro Páramo. 

Por isso, às vezes o leitor se perde em meio a tantas vozes, pois a dificuldade de avançar no texto, está na permanente incerteza em relação a quem é o narrador. Eu mesmo percorri muitas páginas do livro sem saber ao certo para qual direção direcionava meu olhar. Mas, aos poucos, fui descobrindo que aquelas vozes que pareciam estar falando comigo, eram na verdade de pessoas que já não estavam mais vivas, mas continuavam ali, assombrando. Tudo indica que aquelas vozes vinham dos mortos, talvez fantasmas, ou simplesmente, da memória. E eu, como leitor, ao retornar àquele lugar, era só mais um espectro, em meio a tantos outros, tentando entender a história daquela cidade. 

AUTOR

Ricardo Machado

Colunista convidado da FV, é doutor em história, professor na UFFS e curador da Livraria Humana, em Chapecó.
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