Home > guia cultural > Literatura: Roberto Bolaño
19/06/2020 guia cultural

Literatura: Roberto Bolaño

Chamadas Telefônicas é uma ótima porta de entrada para o fantástico e quase inesgotável mundo do autor.

É lugar comum identificar Roberto Bolaño como o último grande escritor latino-americano. Essa parece ser a forma mais fácil que a crítica especializada e o mercado editorial encontram para situá-lo. No entanto, tal definição reduz muito a sua proposta literária. Em nosso entendimento, Bolaño é na verdade o último escritor em que certa América existe como paisagem: o lugar onde as experimentações de vanguarda ainda se apresentavam como possibilidade revolucionária.

Roberto Bolaño nasceu no Chile em 1953, mas sua produção tornou-se relevante no final dos anos 1990, quando acometido por uma doença hepática, escreveu febrilmente grande parte de sua obra. Depois de levar a vida como poeta, trabalhando em lugares precários, costumava dizer que passou a se dedicar a escrita de romances para poder deixar algum sustento para seus filhos.

Em 1968, o ainda púbere Bolaño mudou-se com sua família para a cidade do México, onde se envolveu profundamente com o mundo literário. Ali fundou, com Mário Santiago, o Infrarrealismo: um movimento poético que buscava suas referências nas experiências disseminadas pelas vanguardas artísticas na América Latina. Deste período, um grande acontecimento, ainda envolto em muitos mistérios, foi o seu retorno ao Chile em 1973, justamente em meio a queda do governo de Allende e a ascensão de Pinochet ao poder. Depois de voltar ao México, decide migrar para a Espanha, vivendo um período na cidade de Barcelona, após em Girona e terminaria por se isolar na pequena cidade litorânea de Blanes.


A literatura de Bolaño retrata o desencanto de uma geração que sonhava levar a literatura ao limite, ou seja, a história daqueles que queriam borrar as fronteiras entre a vida e a arte. Seus personagens são sempre uma mistura de poetas/pesquisadores obcecados pelo mundo literário e que acreditam carregar consigo um grande projeto artístico, mas no desenrolar da trama titubeiam, se perdem e acabam promovendo outros encontros inesperados. As vidas desses personagens se desenvolvem em meio a concursos literários, oficinas de escrita, saraus e bares boêmios, e por isso, são atravessadas pelas relações com editores, com leitores e com artistas. Bolaño nos faz acreditar na beleza desses lugares e desses encontros, mas, aos poucos, nos convence de seus vícios, vaidades e ausência de sentido. São sonhadores já de um sonho decadente, porque a literatura como acreditavam estava desmoronando e porque as revoluções que doaram suas vidas já davam sinais de que seriam traídas.

Apesar de ser reconhecido principalmente pelos seus romances de maior fôlego como Os Detetives Selvagens e 2666, a melhor porta de entrada para o mundo de Roberto Bolaño é a leitura de seus contos. Na prosa curta que ele revela muito de seu estilo, inclusive, apresentando personagens que aparecerão em seus romances posteriores. Nesses termos, o livro que possui seus contos mais conhecidos é o Chamadas Telefônicas e nos parece uma ótima porta de entrada nesse fantástico e quase inesgotável mundo.


Chamadas telefônicas
autor Roberto Bolaño
editora Companhia das Letras

AUTOR

Ricardo Machado

Colunista convidado da FV, é doutor em história, professor na UFFS e curador da Livraria Humana, em Chapecó.
LEIA TAMBÉM