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04/04/2020 guia cultural

Literatura: A Nuvem Colona

Gustavo Matte, escritor nascido em Chapecó, ficcionaliza uma geração de jovens que recorreram a estética da gambiarra para produzir e pensar artisticamente a região.



Depois do Demo via, Lets Go (2017), Gustavo Matte retorna à ficção para desenvolver e, em alguns casos, reelaborar os temas por ele apresentados no seu interessantíssimo ensaio Menos Tropical, Mais Tropicalista (2017). A Nuvem Colona foi/é um movimento artístico de jovens interessados em pensar o que significa fazer arte no trânsito entre cidades cujo tema da colonização é inescapável: seja pelo reconhecimento de uma singularidade cultural presente nas formas de expressão, ou pelo profundo investimento político-discursivo que busca estabilizar as identidades regionais em uma unidade conciliatória e homogênea. Matte justamente mostra a fricção desses temas através da criação de um personagem (o próprio autor) que busca descrever a história dessa geração. Recorrendo a entrevistas, é na fala das personagens que Matte coloca em funcionamento, mesmo provisoriamente, categorias que expressam uma forma de fazer arte por pessoas que, diante da escassez, aprenderam a não desperdiçar nada. Apresenta uma geração que cresceu em situações bem mais favoráveis do que seus antepassados, e conviveram com as mesmas referências culturais na hora de fazer arte, por isso suas obras são marcadas pelo improviso. Pelo kitsch, pela presença de um humor nonsense que aparece mesclado com o grotesco. Essa especificidade é o que se apresenta como Estética da Gambiarra ou Estética do Talo.

A Nuvem Colona é inquieta porque, como toda nuvem, assim que toma uma forma já começa a desmanchar-se. Quando parece que encontramos uma unidade, logo em seguida encontramos todos os argumentos que desmoronam os anteriores. Por isso, a Nuvem Colona é um livro de um futuro que nos é contemporâneo. Por isso, coloca sob suspeita as nossas certezas e se realiza pelo conflito de interpretações apresentadas pouco a pouco pelos entrevistados de Matte. Da mesma forma que a geração em que pretende retratar, Matte também recorre à estética do talo para fazer sua Nuvem e, através dela, apresentar todas as grandes questões da literatura contemporânea. Está tudo ali: o problema da noção de “literatura brasileira”, as tensões interseccionais de classe e gênero e, sobretudo, os descaminhos da escrita diante da percepção de que a literatura como conhecíamos chegou ao seu esgotamento.

A Nuvem Colona é pura ficção, mas completamente verdadeira.

AUTOR

Ricardo Machado

Colunista convidado da FV, é doutor em história, professor na UFFS e curador da Livraria Humana, em Chapecó.
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