Home > guia cultural > Desconexo: Telas para todos os lados
11/08/2020 guia cultural

Desconexo: Telas para todos os lados

A proliferação de telas dos mais variados tipos, formatos e suas conectividades é sintoma dos nossos tempos de mediação digital e proliferação de informação. Até que ponto isso é produtivo ou tóxico ainda é difícil de mensurar, mas em tempos de pandemia o

Acordo de manhã com o despertador do smartphone que, logo em seguida, me dá a previsão do tempo. Depois dos rituais de acordar, antes mesmo de tomar café, sou obrigado a abrir o WhatsApp e verificar o que está acontecendo. Podem ser demandas profissionais, sociais ou familiares que podem exigir minha atenção, especialmente em tempos (muito estranhos) em que algo grave pode estar acontecendo bem perto da minha realidade. Depois desta rodada e do café, entro no “modo home office” para uma extensa escala de reuniões e produções técnicas que terminarão quando escurecer (ou mais tarde, quando tenho aula marcada).

Em home office, olho para minha mesa e vejo quatro telas, uma repousando momentaneamente. Numa tela escrevo este texto, noutra o navegador encontra-se com umas 20 abas abertas com demandas que precisam ser lembradas (ou não esquecidas, se preferir) e noutra o WhatsApp aberto para acompanhar a mistura de demandas profissionais e sociais que não param. Quando levanto para almoçar ou fazer um intervalo, ao menos a tela do smartphone vai junto para visualizá-lo mesmo durante a refeição (ok, não é certo, mas quem resiste?).

Depois da longa jornada de trabalho articulando telas, no momento de ócio ligo a tela da televisão, cabendo decidir se retomo aquele videogame que pretendo concluir ou atualizarei uma das séries de um dos serviços de streaming. Nesta hora, o smartphone está por perto no caso do videogame, o qual pede minha atenção esporadicamente, ou ele é interface para selecionar o que vou assistir e projetar na televisão. No fim do dia, uma última atualização das redes sociais com a tela do smartphone antes de dormir, já na cama. Tirando momentos fisiológicos e de higiene, meu dia foi pautado por telas.

O relato particular (com precisão relativa) de um dia em contato com telas e suas informações (sem contar as abas do navegador) é um exercício de reflexão ao qual podemos/devemos nos colocar sobre os efeitos que já demandavam nossa preocupação e que, em tempos de pandemia, se tornaram exponenciais. Talvez, na sequência da preocupação com o vírus que está assolando a humanidade e obrigando-nos a mudar hábitos, tenhamos que nos preocupar com outra endemia ocasionada pelo extenso contato com telas, que podem estar nos adoecendo aos poucos. Estranhamente, sinto falta da tela de cinema que, por razões evidentes, não vejo há meses. Nesta “tela-mãe audiovisual” (uma das primeiras da humanidade), minha atenção costuma ficar focada durante a projeção do filme e o smartphone no desligado ou esquecido no silencioso. Bons tempos.


AUTOR

Hilario Junior

Colunista convidado da FV, é professor de Comunicação e Design (Unochapecó). Graduado em Computação, Especialista em Cinema, Mestre e Doutor em Comunicação.
LEIA TAMBÉM