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06/04/2022 guia cultural

Batman no divã

Se o Batman de Matt Reeves fizesse terapia regularmente ele não seria o Batman, certo?

Os traumas não tratados na infância é que motivam grande parte da sua persona adulta: um sociopata protofascista que acredita em fazer justiça através da violência e que tem recursos para tanto. 

O filme que estreou no início de março e algumas idas ao consultório do Dr. Mesquita e da Dra. Ana Amélia me motivaram a fazer esse exercício criativo na minha primeira coluna aqui: imaginar que tipo de distúrbios estariam no diagnóstico de Bruce. Nesse novo longa, Batman está mais próximo de suas origens: combatendo criminosos como traficantes, mafiosos e cafetões. É muito melhor do que ver um cara sem superpoderes enfrentando (ou se escondendo de) deuses e demônios como nos filmes com Ben Afleck.

Agora as cenas de ação evidenciam a brutalidade de quem, com uma roupa de borracha, sai batendo em gente armada por aí. O protagonista apanha, sofre e recorre até a drogas pesadas para continuar a briga depois de quase abatido. Visivelmente esse Batman é um homem no limite, sem nada a perder e que toma decisões altamente questionáveis justamente por causa disso. 

Essa figura perturbada e raivosa é convincente, afinal, ninguém em pleno juízo faria o que o Batman faz. Finalmente chegou ao cinema um Batman completamente perdido em suas paranoias, sem os freios sociais instalados e isso é ótimo. 

Pense em quantas pessoas você conhece que, nos últimos anos, precisaram ir à terapia. Nesses tempos, analisar um protagonista mundial como o morcegão, prestando atenção às patologias mentais é mais que divertido e o filme acerta ao permear suas quase três horas com essas discussões e subtemas necessários. 

Se pudéssemos sentar Bruce Wayne num divã, o que ele diria? Que ele sozinho iria enfrentar todos os bandidos do planeta? Que com dinheiro, força bruta e um cinto de utilidades ele acredita poder salvar a sociedade da decadência moral instalada? Estamos vendo o que pessoas poderosas com discursos simplistas como esse causam na sociedade. 

O que o psiquiatra recomendaria? Uma camisa de força preta com morceguinhos amarelos? 

Em resumo, para quem quer ver um bom filme de ação e investigação, é um prato cheio. Mas o grande mérito está na habilidade de inserir de maneira orgânica algumas subcamadas como essa, que permitem apreciar um filme de super-heróis sem desligar o cérebro, o que convenhamos, não se vê todo dia. Vale prestar atenção também na complexidade do vilão principal, figura assustadoramente comum nos fóruns da web atual.


ELVIS PICOLOTTO é membro fundador do Núcleo de Estudos em Cinema da UPF e gerente de comunicação na Berenice Criativa.

AUTOR

Elvis Picolotto

Colunista convidado da FV, é membro fundador do Núcleo de Estudos em Cinema da UPF e gerente de comunicação na Berenice Criativa
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