Existe um mal-estar na literatura brasileira: a conclusão de Paulo Leminski sobre Cruz e Sousa
O curitibano escreveu na década de 1980 uma biografia sobre Cruz e Sousa para a editora Brasiliense. Ali, uma das principais hipóteses de Leminski para explicar a verve poética de Cruz e Sousa foi considerá-lo um “negro de alma branca”. Afirmava que as formas alvas, vaporosas e brancas que aparecem nos poemas de Cruz e Sousa seriam sintomas de um desejo de branquitude por parte do poeta negro.
Marcelo Ariel e Ronald Augusto problematizam este juízo crítico de Leminski quando se lê a apresentação e o posfácio que escreveram para a edição lançada agora em 2025 intitulada Cruz e Sousa, poesia reunida, da editora Assírio & Alvim. Recomendo com entusiasmo este calhamaço monumental de 860 páginas. Lembrando que a curadoria de Marcelo Ariel, que norteou a organização do livro, prezou pela poesia reunida e não pela poesia completa ou pela obra completa. Digo isso para assinalar que Cruz e Sousa foi um prodígio artístico tal qual Van Gogh o foi para a pintura holandesa. Caudaloso, um cometa fulgurante que escreveu muito em pouco tempo: viveu 37 anos entre 1861 e 1898.
Marcelo Ariel explica: “Falemos de Cruz e Sousa, desse negro nascido no desterro e morto no exílio, privado de saúde, fama e glória. Uma coisa essencial a ser dita é que ele não era um negro branco, alcunha que foi utilizada pelo poeta Paulo Leminski e considero ironicamente equivocada, porque um negro dominar a cultura eurocêntrica e absorvê-la como modo de ampliar sua força cultural pessoal e chances na sociedade não o torna menos negro”. Ao mesmo tempo humana e espiritualizada, a existência de Cruz e Sousa, nascido na Ilha de Santa Catarina, foi um colosso de força e forma forjada a golpes de sofrimentos tétricos que o tornam não apenas um poeta, mas também um herói trágico do início da modernidade brasileira.
Saber que Cruz e Sousa continua a brotar no mercado editorial brasileiro – conquanto passado mais de um século e meio desde o seu nascimento – é um alento. O que acontece é aquilo que Marcelo Ariel chama de “triunfo secreto dos derrotados”. O supremacismo branco vai ter que esperar quietinho até que alguma pessoa branca chegue aos pés do vulto da obra poética de Cruz e Sousa. Todo o sofrimento que o racismo operou sobre o corpo, a família e os sonhos de Cruz e Sousa foi transformado por ele, como se fosse um alquimista, em “Tesouros Imortais”. É o que se lê no soneto: “Tu és o louco da imortal loucura, / O louco da loucura mais suprema, / A terra é sempre a tua negra algema, / Prende-te nela a extrema Desventura. / Mas essa mesma algema de amargura, / Mas essa mesma Desventura extrema / Faz que tu’alma suplicando gema / E rebente em estrelas de ternura”, duas primeiras estrofes de O Assinalado, do livro Últimos sonetos.
Fernando Boppré
Colunista convidado da FV, é livreiro da Humana Sebo e Livraria, escritor e mestre em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina