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06/10/2022 guia cultural

O sentido do RPG

Imaginação, sociabilidade, criatividade

Os RPGs (role-playing games) já foram incompreendidos pela sociedade, mas provam-se cada vez mais efetivos em desenvolver em seus jogadores capacidades lúdicas, de relacionamento interpessoal e estímulo à criatividade


Para explicar de forma simples (mas efetiva) o que é jogar um RPG para alguém que não conhece, costumo começar o assunto da seguinte forma: “imagine que você pode ser um personagem num mundo fantástico de obras como Senhor dos Anéis ou Star Wars, vivendo, interpretando e lutando contra adversidades desafiadoras e imprevisíveis, mas edificantes e emocionantes”. Basicamente, RPG é isso: construir um personagem dentro de um universo ficcional com regras e conceitos específicos, interagir com outros personagens, viver experiências que vão desde situações comuns a atos heróicos e evoluir seu personagem fazendo escolhas sobre como ele pode se tornar sua melhor versão possível, dentro do papel que você resolveu desempenhar.

Um pouquinho de história… Este tipo de jogo surgiu na comunidade de fãs de histórias fantásticas bem construídas e detalhadas, mas que possuíam dois problemas: primeiro, elas terminavam e, segundo, não era possível “habitar” aquela história. A longa obra de J.R.R Tolkien (Senhor do Anéis) é uma destas fantasias, bem como a de C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia). Elas mesmas baseadas em mitologias diversas em que seres incríveis existem e a realidade pode ser moldada pelos seus atos heróicos. Naturalmente, algumas editoras viram o potencial e investiram em equipes criativas para criar universos com temas e regras que dão o pano de fundo de um mundo onde os jogadores possam criar identidades e viverem suas próprias histórias. 

Na raiz, o RPG ocorre numa mesa, com fichas de personagens, lápis, borracha, mapas e cenários, dados, livros de regras, jogadores e, dentre eles, um DM (dungeon master) responsável de conduzir a história e articular as ações e consequências das decisões dos jogadores. Hoje em dia, encontram-se alternativas digitais (como os MMORPGs) que traduzem alguns dos elementos citados, procurando gerar a mesma experiência e agregam milhões de jogadores online, mas, embora sejam um sucesso, perdem um pouco do contato interpessoal e se submetem aos limites do algoritmo do game. Por isso, vou me ater à experiência original.

Em essência, por mais que haja uma pessoa responsável em conduzir a narrativa, mesmo ela não consegue prever todos os fins, pois depende da atitude dos jogadores e suas decisões. Cabe ao DM narrar situações e compelir os jogadores a se expressar e tomar decisões. Há mais de 25 anos jogando este tipo de jogo (como jogador ou DM), posso afirmar que ele me ajudou muito em pensar de forma criativa e estratégica para resolver problemas, além de desenvolver espírito de equipe e capacidade de negociação, estabelecimento de metas e meios para alcançá-las. Sobretudo, muitas experiências inusitadas poderiam ser escritas, publicadas ou até produzidas em filmes e animações. Aqui cito duas, uma clássica e uma recente. Caverna do Dragão, que faz parte do imaginário de muitos nascidos na década de 80, é um desenho baseado na primeira versão do RPG medieval Dungeons & Dragons e, por si só, é um exemplar do impacto cultural deste jogo de interpretação. Já A lenda de Vox Machina, disponível no Prime Video, é um desenho produzido a partir do registro e transmissão em áudio das sessões de jogo de um grupo de amigos (canal Critical Role), que ocorreu entre 2015 e 2017.

Por mais que tenha sido incompreendido em algum momento pela sociedade, como representado na série Stranger Things, o RPG é uma manifestação cultural incrível e desenvolvedora para seus jogadores. Em tempos em que o mundo real não faz mais sentido, histórias fantásticas em que a luta contra o mal é mais clara e que regras são respeitadas por todos é um alento para jogadores encontrarem propósito e recompensas imaginárias, mesmo que por algumas horas de diversão.

AUTOR

Hilario Junior

Colunista convidado da FV, é professor de Comunicação e Design (Unochapecó). Graduado em Computação, Especialista em Cinema, Mestre e Doutor em Comunicação.
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