Durante algumas páginas, Jim experimentou um estado de liberdade que jamais havia desfrutado. Como a arca de Noé, o cometa daria à humanidade uma segunda chance, um novo recomeço
E se a passagem de um cometa pelo nosso planeta deixasse um rastro de mortos, de tal modo que, à princípio, o único sobrevivente fosse Jim, um homem negro, um trabalhador faz-tudo de um grande banco no coração de Manhattan? Se depois de vasculhar entre milhares de corpos espalhados pela rua, esse homem encontrasse uma única mulher, rica e branca, que tipo de relação se estabeleceria? Esse mundo deixaria de ser dividido entre a subalternidade negra e a dominação branca? Esse casal teria condições de criar uma nova linhagem humana em que as diferenças fenotípicas não fossem definidoras de privilégios e exclusões? Existirá um mundo em que a supremacia branca chegará ao seu fim? Provavelmente, foram perguntas como essas que fizeram Du Bois imaginar a história distópica de O Cometa. Ainda que ele fizesse parte da minoria de afro-americanos que no final do século XIX chegaram a acessar os bancos universitários, ainda que ele tivesse sido o primeiro homem negro a concluir o doutorado em Harvard, ainda assim, Du Bois só conseguiu imaginar a chance de existir uma sociedade em que um homem negro pudesse ser considerado humano como outros homens, através da destruição do próprio mundo. Por conta disso, O Cometa, publicado originalmente na coletânea de textos DarkWater em 1920, foi tido como precursor do que mais tarde chamaríamos de Afropessimismo e Afrofuturismo.
No ano em que escreveu o conto, os Estados Unidos tinham acabado de passar por dois acontecimentos avassaladores: a pandemia de Influenza, que apesar de conhecida como gripe espanhola, não só teve seus primeiros casos, como foi avassaladora nos EUA; e o Verão Vermelho, uma série de atentados de supremacistas brancos que resultaram em centenas de mortos, homens e mulheres negros, em grande parte vítimas de linchamentos, cujos bairros em que viviam foram inteiramente destruídos pelo ódio racial. A intelectual norte-americana Saidiya Hartman – autora do artigo que acompanha a tradução brasileira publicada pela editora Fósforo – informa que, para Du Bois, dos dois acontecimentos, o mais marcante foi o Verão Vermelho, pois impactou profundamente na comunidade negra, sendo decisivo na escrita de O Cometa. Para ele, a terrível gripe era incomparável com os efeitos da necropolítica racista, fazendo com que os moradores negros experimentassem taxas de mortalidade equivalente ao número de pessoas brancas mortas pelo vírus. Aqueles homens e mulheres tiveram que enfrentar as duas epidemias, sendo que a racial, seus efeitos foram e continuam sendo arrasadores. Daí o pessimismo de Du Bois. O jugo da supremacia branca parecia tão invencível que só teria sua derrota garantida no fim do mundo, com a morte definitiva de grande parte da espécie humana. Ainda assim, durante algumas páginas, Jim experimentou um estado de liberdade que jamais havia desfrutado. Como a arca de Noé, o cometa daria à humanidade uma segunda chance, um novo recomeço. O protagonista da trama e nós, os leitores, acreditamos que isso realmente seria possível. Só então descobrimos que nem mesmo essa possibilidade estava garantida.
Ricardo Machado
Colunista convidado da FV, é doutor em história, professor na UFFS e curador da Livraria Humana, em Chapecó.