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29/03/2020 saúde

Ainda há tempo

Você saberia dizer qual dessas pessoas tem uma IST? Nós também não. Elas não escolhem o hospedeiro, atingem o sistema imunológico e podem causar a morte, se não tratadas.



Receber o diagnóstico de uma doença não é fácil e, menos ainda, é entender o porquê estamos doentes. Pensamentos negativos podem ocorrer quando descobrimos alguma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) no nosso corpo, motivados pelo medo e, muitas vezes, pela falta de informação. Um diagnóstico de IST não significa uma sentença de morte, mas sim um alerta para começar o tratamento imediatamente.

As ISTs eram chamadas de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), o que mudou há algum tempo. De acordo com o Ministério da Saúde, a denominação D significa doença, ligada a sinais e sintomas visíveis no organismo humano. Diferentemente, infecções como sífilis, herpes genital e condiloma acuminado, são assintomáticas. Assim, através do Decreto nº 8.901/2016, as DSTs passaram a ser designadas como ISTs.

Como descritas na própria nomenclatura, as Infecções Sexualmente Transmissíveis são disseminadas através da relação sexual desprotegida, por transfusão de sangue contaminado e/ou da mãe para o feto. O Boletim da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2019, apontou que são detectados, diariamente, mais de 1 milhão de novos casos de ISTs curáveis entre pessoas de 15 a 49 anos. Isso equivale a mais de 376 milhões de novos casos anuais de quatro infecções — clamídia, gonorreia, tricomoníase e sífilis.

A sífilis, cujo aumento dos diagnósticos atingiu níveis alarmantes nos últimos anos, pode causar pânico por falta de informação. Conforme dados do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 28,3% nas notificações da infecção no Brasil, entre 2017 e 2018, resultando em mais de 158 mil casos confirmados.

Entre 2016 e 2017, preocupado com o aumento dos casos de sífilis no País, o Ministério da Saúde solicitou aos municípios a criação de comitês de combate à infecção. A cidade de Chapecó foi pioneira na ação em Santa Catarina, como explica a pediatra Mara Schaun, coordenadora do Comitê Municipal de Prevenção a Transmissão Vertical de Sífilis, HIV, Hepatites B e C e Toxoplasmose (CMPTV). “Desde que foi criado, o CMPTV tem obtido bons resultados, com o intuito principal de diminuir a sífilis congênita (transmitida durante a gestação, da mãe para o bebê). Não é só um trabalho do comitê, mas também das unidades básicas, hospitais e Clínica da Mulher. É um trabalho conjunto. Com essa parceria conseguimos diminuir a sífilis congênita em Chapecó”.

Uma das formas de diagnosticar doenças precocemente é realizar exames de rotina. Culturalmente mais atentas à saúde que os homens, as mulheres tornam praxe a visita ao médico ginecologista e fazem, ao menos uma vez ao ano, o papanicolau, popularmente conhecido como preventivo. “O objetivo dos exames de rastreamento é antecipar o desenvolvimento de complicações futuras em indivíduos propensos a contrair a doença, mas que no momento são assintomáticos. O preventivo do colo uterino, por exemplo, busca detectar lesões precursoras do câncer nesta região que, em mais de 90% dos casos, é causado pelo vírus HPV (transmitido principalmente pelo contato sexual) — cuja janela imunológica varia em até 10 anos, mas é tratável e com alta chance de cura, quando diagnosticado no início”, explica a ginecologista Fernanda Piovezana Giacomazzi, e lembra que não são requisitados exames de rotina para as ISTs, pois existem métodos eficazes para as suas prevenções.


Prevenção e vida saudável

A forma mais efetiva de combate às ISTs é o uso de preservativo durante as relações sexuais e as políticas públicas criadas pelos governos nacional, estadual e municipal — asseguradas na Constituição Brasileira e consideradas direitos dos cidadãos, com a finalidade de informar e conscientizar a população.

De acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, Santa Catarina foi o estado com a maior taxa de detecção de sífilis em 2018, sendo 164,1 casos a cada 100.000 habitantes.


Em Chapecó, o trabalho referente a prevenção e combate às ISTs começa nas unidades básicas de saúde, com os protocolos do Ministério da Saúde, como explica a enfermeira Diane Negri, coordenadora da Vigilância Epidemiológica do município. “Hoje, as políticas públicas estão voltadas mais para o HIV e a Aids. Mas temos protocolos relacionados à sífilis e às hepatites, com encaminhamento dos pacientes dentro dos serviços, das condutas e orientação dos profissionais quanto a isso. Além de tudo, o Comitê de Transmissão Vertical também orienta a conduta dos casos”¹.

Os testes, a medicação utilizada, os exames e encaminhamentos para especialidades são gratuitos, como complementa a enfermeira Fátima Piovesan, gerente de Vigilância e Saúde de Chapecó. “Disponibilizamos os testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites B e C, em todas as unidades do município. Favorecendo os diagnósticos e em questão de 30 minutos já sai o resultado”.


Em uma rede de amparo, Chapecó conta também com o Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa), que há 30 anos trabalha no combate às ISTs, para manter o respeito, os direitos e a liberdade do ser humano, unindo forças às redes públicas. “O preconceito não mudou, esse é o problema. A Aids ainda é um tabu, porque, para a nossa sociedade, o sexo é um tabu. Na década de 1980–1990, quando comecei a ser voluntário neste trabalho, o medo que sentíamos de sermos diagnosticados era enorme. Esse receio mudou, o serviço público melhorou muito no quesito atendimento e abordagem, mas o preconceito e o medo ainda são muito grandes”, salienta Dirceu Hermes, presidente do Gapa.

Esperança de tempos melhores

Sentado em um banco, Felipe (aqui protegido por um pseudônimo) começou a falar sobre sua vida. “Me descobri soropositivo, na adolescência. Estava em uma cidade grande, sozinho, foi um estrago absurdo”. Felipe é portador do vírus do HIV, diagnosticado na década de 1980, com apenas 19 anos, logo quando a doença ganhou repercussão mundial. Na época, um dos problemas graves que o HIV carregava consigo era a discriminação, especialmente contra os homossexuais.

Com a voz serena, Felipe, hoje com 55 anos, relata como foi amadurecer em meio a tanta ignorância acerca da doença. “Na ocasião nós sabíamos da ‘peste gay’. O horror começou ali. Quando falamos em preconceito, então sofri com dois problemas: tinha a ‘peste gay’ e era gay”.

Felipe soube da sua condição de soropositivo através de um parceiro, que na tentativa de doar sangue, descobriu-se portador do HIV. “O meu companheiro entrou em pânico e tentou algumas vezes cometer suicídio. Demorei alguns meses para fazer o teste, pois a tensão passou a ser presente 24 horas por dia. O meu amor por ele era grande, precisava protegê-lo, pois só nós dois sabíamos da nossa condição. Não conseguiria sobreviver, se ele cometesse suicídio, iria fazer o mesmo. Foi pavoroso conviver com aquela situação, viver no silêncio e, ainda por cima, ouvir o que nós ouvíamos. No desespero, tentei suicídio, tomei medicamentos, mas na esperança de sobreviver”.

Infelizmente, o preconceito ainda existe, mas Felipe aprendeu a conviver com a doença e encontrou força em seus familiares. Com o tratamento medicamentoso, percebeu que é possível seguir em frente e passa essa coragem adiante, através de palestras e grupos de apoio. Olhar para o lado com empatia, colocando-se no lugar do outro é o melhor antídoto para a discriminação. As ISTs não são transmitidas pelo abraço, nem pelo beijo, muito menos pelo afeto. Como escreveu Renato Russo “quando tudo está perdido, sempre existe uma luz”.


¹ Fonte: Vigilância Epidemiológica de Chapecó/SINAN

AUTORA

Ana Laura Baldo

Estagiária de Jornalismo, especialista em drama, além de futura jornalista, sonha em ser atriz.
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