Home > comportamento > Racismo: literatura ao esporte
03/07/2020 comportamento

Racismo: literatura ao esporte

Atletas de Chapecó se posicionam contra a discriminação racial.

Você conhece Machado de Assis? Bem, então deve saber que esse foi, e ainda é, um dos principais nomes da nossa literatura. Machado foi o responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras e deixou marcado na nossa história seus contos. Mas tem uma informação sobre nosso escritor que talvez você desconheça, Machado de Assis era um homem negro. Em relação às fotografias, que podem até dizer o contrário, saiba que foram utilizados truques de luz para tornar sua pele mais clara e seus traços com toque europeu. O embranquecimento de Machado, vai em oposto ao seu ativismo, o qual sempre lutou por causas raciais – do alto de sua expertise literária.

Quando Machado escrevia Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881, nós ainda vivíamos no Brasil a “febre” do remo – esporte considerado a primeira paixão dos brasileiros. O futebol, seu sucessor, só chegou ao País em 1895 – como constam em registros históricos. De lá para cá muita coisa mudou, o rema não é mais tão popular. Mas em contrapartida, o racismo vivido por Machado de Assis, ainda escreve tristes histórias nas páginas do nosso País.

Nossa pátria amada, que após seus 300 anos de escravidão, segue tratando de forma desigual seus filhos. Filhos e filhas, como Rafaela Silva, Roger Machado, Ludmila da Silva, Taison e Dentinho. São homens e mulheres, atletas de diversos esportes. Personalidades que inspiram gerações de atletas e encantam torcedores. Atletas vitoriosos, com currículos encantadores. Mas vítimas de um problema estrutural da sociedade: o racismo.

No Brasil a população negra representa 56%. Mas mesmo assim, são minoria nos espaços de decisão. Pessoas negras ocupam cerca de 29% dos cargos de gerência em empresas brasileiras. Dentre os 10% dos brasileiros com menor renda familiar mensal, 75% são negros. Uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio que uma pessoa branca. Esses dados constam no estudo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”, divulgado em novembro de 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quando se trata de esporte, o Observatório da Discriminação Racial – entidade dedicada a pesquisar e discutir o tema do racismo – registrou 47 casos de ofensas em jogos ou competições no Brasil, até novembro de 2019. O número representa um crescimento de 6,8% em relação ao ano anterior. Esse cenário parece distante da nossa realidade, mas está presente no nosso dia a dia, nas nossas atitudes e no esporte que consumimos.

Nega coleciona em seu currículo passagens pela Seleção Brasileira de Futsal Feminino e por clubes vitoriosos de Santa Catarina (Crédito: Ricardo Artifon)


Caroline da Silva Marciano, conhecida como Nega, é uma dessas atletas, que sabe muito bem o que representa essa discriminação. Ela começou sua carreira no futsal em um projeto social na Zona Leste de São Paulo. Nega jogava com os meninos, participou até de competições masculinas. Com o tempo foi necessário buscar uma equipe feminina. E aos 16 anos veio para Santa Catarina e iniciou como profissional. Nega é hoje uma atleta de renome internacional, ex-atleta da Female – equipe de futsal de Chapecó – e atualmente atua pelas Leoas da Serra. “Hoje sou uma atleta que falo e sou ouvida, e é muito importante nos posicionarmos, porque às vezes as pessoas dizem coisas e nem se dão conta de que estão sendo racistas, e a gente precisa aproveitar nossa visibilidade e local de fala para se posicionar”.

Adenildo é sensei de Judô em Chapecó e já foi técnico

da seleção catarinense da modalidade (Crédito: Arquivo pessoal)

Adenildo Alves é mestre de Judô e dá aula para os atletas de Chapecó, mas sua história começou distante das terras catarinenses. Baiano, nasceu em Salvador e lá começou sua carreira aos 10 anos de idade em um projeto social. Mestre Adenildo conta que a modalidade é baseada no respeito e disciplina, e tem como objetivo formar cidadãos melhores. O mestre explica que esses elementos do Judô fazem com que o racismo não exista nesse espaço, “se aprende a respeitar todos, se torna algo característico do aprendizado da modalidade, independente de raça, religião ou cultura”.

Para ele, muitos projetos sociais em periferias fazem com que o Judô e outras modalidades de luta tenham maior quantidade de atletas negros. Esses projetos, na opinião do mestre, fazem com que “as crianças abracem essas modalidades e possam sonhar e crescer no esporte. O número de atletas negros está aumentando, e são atletas que estão se destacando cada vez mais”. O judoca relata que o esporte foi fundamental na sua formação enquanto cidadão. "Acredito que o esporte pode ajudar muita gente, como me ajudou, afinal, dentro do esporte não é a cor que vai fazer a diferência”.

Luiz Müller nasceu em São Paulo e a cerca de quatro anos está em Chapecó. Quando chegou aqui carregava consigo o sonho de jogar futebol americano, e foi no esporte que encontrou uma forma de se inserir no novo espaço. “Estava com dificuldade de me adaptar, aí fiquei sabendo que tinha uma time de futebol americano aqui em Chapecó. Fui no Verdão, falei com os meninos e comecei a jogar”. Müller faz duras críticas a essa “cultura racista”, e questiona nossa forma de olhar para esse problema e naturaliza-lo. "No Brasil, o negro é jogador de futebol ou pagodeiro ou é bandido, e se não for nenhum desses, tem que estar morto”. Isso precisa mudar, afirma o atleta que atua como Offensive Line.


Luiz Müller atua como OL (Offensive Line) na equipe de futebol americano de Chapecó, o Chapecó Badger’s (Crédito: Valeria Cenci)


A solução para Nega, Adenildo e Müller é unânime, a melhor forma de combater o racismo é a educação. O trabalho de conscientização deve partir da escola, seja ensinando que não existe um lápis “cor de pele” ou mesmo trabalhando mais sobre a cultura do povo negro. Afinal somos todos iguais, e “quando isso estiver dentro do aluno, ele vai levar isso para casa, para a sociedade”, diz Adenildo, e assim nossa cultura vai mudar, mudando a estrutura da sociedade, no combate ao racismo. E sim, a educação é a mais eficiente forma de transformação social. Seja com a literatura de Machado de Assis ou com o esporte, o importante é respeitar e cultivar a diversidade cultural, na sala de aula, nas quadras, campos ou tatame


*Matéria de Valeria Cenci, estagiária de jornalismo da FV.

**Foto Capa 1: Valeria Cenci | Foto Capa 2: Fom Conradi


AUTORA

FVcomunica!

Revista Flash Vip, contando histórias desde 2003.
LEIA TAMBÉM