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06/06/2020 meio ambiente

Natureza monocromática

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou, este ano, que o mês de abril voltou a registrar um novo aumento no desmatamento da Amazônia. Se comparado ao mesmo período do ano passado, o número subiu cerca de 63%.

“Devemos nos comprometer com a manutenção dos ecossistemas essenciais que tornam possível a nossa existência como espécie, dentro de condições ambientais aceitáveis. A estabilidade dos ecossistemas deve ser um objetivo claro do Ministério Público em sua atuação frente a realidade e o direito, e, ainda que possamos ouvir diversas opiniões, o fato é único: os recursos naturais são finitos e a exploração e o consumo desenfreados.”

Essa afirmação fez parte da nota do promotor de justiça, Paulo Antônio Locatelli, divulgada ontem (5) pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), em alusão ao Dia Mundial do Meio Ambiente.

Partindo desta premissa, o Brasil se encontra a mercê de um cenário caótico em relação ao meio ambiente. Responsável por acolher a maior parte territorial da Floresta Amazônica, considerada a maior floresta tropical do mundo, onde existe uma imensa biodiversidade, o País caminha de lado oposto a preservação. Segundo‌ ‌estimativa do‌ ‌‌Instituto‌ ‌Nacional‌ ‌de‌ ‌Pesquisas‌ ‌Espaciais‌ ‌(INPE),‌ ‌entre‌ ‌agosto‌ ‌de‌ ‌2018‌ ‌e ‌julho‌ ‌de‌ ‌2019‌ ‌houve‌ ‌um‌ ‌aumento‌ ‌de‌ ‌29,54%‌ ‌nos‌ ‌desmatamentos‌ ‌dentro‌ ‌dos‌ ‌nove‌ ‌estados‌ ‌da‌ ‌Amazônia‌ ‌Legal‌ ‌Brasileira – que abrange o Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão.‌ ‌Isso‌ ‌corresponde‌ ‌a‌ ‌uma‌ ‌área‌ ‌de‌ ‌9.762‌ ‌km²‌ ‌de‌ ‌desmatamento,‌ ‌ comparado‌ ‌a‌ ‌taxa‌ ‌de‌ ‌7.536‌ ‌km²,‌ ‌apurada‌ ‌pela‌ ‌Coordenação-Geral‌ ‌de‌ ‌Observação‌ ‌da‌ ‌Terra‌ ‌ (PRODES),‌ ‌em‌ ‌2018.‌

Incêndio na Floresta Amazônica. Foto: Victor Moriyama | Greenpeace


Conforme explica o professor universitário e biólogo Jackson Preuss, especialista em Gestão, Licenciamento, Auditoria e Perícia Ambiental e doutorando em Biologia, a maior apreensão em relação a Amazônia é o desmatamento. “O que mais preocupa é que a Amazônia está sendo degradada, estamos perdendo boa parte dos seus recursos. E o principal fator é ocupação de humanos e a destruição de habitat. Nós sabemos que o desmatamento só tem aumentado, e temos relatos relacionados à ocupação urbana e à queimadas para o setor agrícola”, explica Preuss.

De acordo com o professor, a Amazônia é um ambiente extremamente importante para o equilíbrio do mundo e não pertence só ao Brasil. A floresta é dividida com outros países como Colômbia, Bolívia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e a Guiana Francesa. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a Amazônia é o maior bioma do Brasil, abrangendo um território de 4.196.943 de km2 (IBGE, 2004). Na floresta crescem 2.500 espécies de árvores e 30 mil espécies de plantas, além de cobrir a maior bacia hidrográfica do mundo. Seu principal rio, o Amazonas, corta a região e deságua no Oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo.

Ainda segundo Preuss, a Amazônia é grande responsável pela captação de dióxido de carbono e liberação de umidade. Graças a floresta, a umidade da América do Sul faz com que seja possível o plantio nas terras brasileiras. “Como se fosse um rio aéreo, ela capta partículas de água do solo e libera para a atmosfera, fazendo com que as chuvas e a umidade sejam controladas em toda a América do Sul e outros territórios também. Vários sistemas globais estão diretamente relacionados com a Amazônia. Por conta do desmatamento, junto com as árvores que se vão, nós perdemos uma infinidade de biodiversidade – animais, plantas e microorganismos acabam desaparecendo antes mesmo de conhecermos esses grupos”, salienta o biólogo.


A natureza no estado catarinense

Mas isso não se restringe apenas à Floresta Amazônica, em Santa Catarina os dados sobre a preservação ambiental não são nada agradáveis. Mesmo sendo considerado pela 12º vez o melhor estado para se viajar no Brasil, muito por suas belezas, Santa Catarina vai na contramão da preservação da natureza. O estado catarinense, segundo dados do Atlas da Mata Atlântica relativo ao período de 2017 a 2018, registrou o desmatamento de 905 hectares de áreas da Mata Atlântica, perdendo somente para os estados de Minas Gerais (3.379 ha), Paraná (2.049 ha), Piauí (2.100 ha) e Bahia (1.985 ha).

Para Jackson Preuss, a Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos e diversos do planeta, considerado um hotspot (reserva de biodiversidade, que pode estar ameaçado de destruição). “A Mata Atlântica é considerada um ambiente extremamente fragilizado, pois se localiza, principalmente, na região próxima ao continente, parte litorânea do Estado. Ela se estende em uma faixa muito grande, onde ficam as maiores e grandes cidades do Brasil. Por esse motivo, pela expansão urbana, a Mata Atlântica acabou sendo espremida e desaparecendo em boa parte do território nacional. Temos aproximadamente 7% da cobertura original e o que restou são pequenos fragmentos florestais, muitas vezes isolados em ilhas”, salienta Preuss.

O biólogo explica que o estado de Santa Catarina tem uma cobertura vegetacional, relacionada a Mata Atlântica bem pequena, se comparada a outros estados e o desaparecimento desse bioma acarreta em sérios problemas para os seres humanos, pois muito dos recursos hídricos e a temperatura urbana é controlada por ela e por esses tipos de ambientes. “O desmatamento descontrolado, culminando na diminuição dessa cobertura vegetacional, gera sérios problemas para nós, seres humanos, e para a fauna, que muitas vezes acabam se direcionando para cidades e tendo contato inesperado com os seres humanos, como animais peçonhentos. Com a diminuição das florestas, aumenta o número de mosquitos, que muitos, consequentemente, podem ser vetores de patogênese de doenças como a dengue e chikungunya, causando um impacto direto na saúde e na vida das pessoas”, alerta o professor.

Para mudar essa realidade de descaso da natureza é preciso agir em defesa da preservação do meio ambiente. Jackson avalia que a principal prática a ser tomada, é a mudança de consciência. “O dia que o ser humano perceber que a natureza, o meio ambiente e os recursos naturais são fundamentais para nossa sobrevivência, para nosso bem-estar físico, psicológico e social, com certeza a mudança vai ocorrer. A principal ação que precisa ser tomada é a conscientização. Percebermos e valorizarmos a natureza como parte fundamental para nossa sobrevivência”, destaca.

Não há poder bélico ou recurso financeiro capaz de corrigir um problema que a natureza reflete contra nós, como foi o caso do novo coronavírus. “Por mais que tenhamos um grande desenvolvimento tecnológico e urbano, muitas vezes pequenos organismos, como os vírus, têm um poder de destruição imenso. O surgimento do vírus é por essa má gestão em relação à proteção dos recursos naturais”, conclui Preuss.


O respiro da ecologia

Várias iniciativas sociais e empresariais para ajudar o meio ambiente podem ser criadas, visando um consumo mais sustentável e consciente. Como fez a bióloga, Mestre em Ecologia e também empreendedora, Marina Petzen, que uniu seus conhecimento e o amor pela natureza para criar a sua loja Estilo Verde – Moda Sustentável.

“Descobri a possibilidade de usar roupas feitas de garrafa pet em uma viagem que fiz ao Nordeste. Na ocasião, adquiri uma peça feita de reciclagem e que carregava uma etiqueta de papel semente – fiquei maravilhada ao saber que plantaria a etiqueta e nasceriam papoulas. Meses depois, surgiu a oportunidade de abrir um negócio e não tive dúvidas que existia a necessidade de disponibilizar produtos sustentáveis em Chapecó e região”, conta.

O universo da moda foi o ponto de partida para que Marina iniciasse suas pesquisas dentro do universo de produtos ecológicos, com produção responsável e adequada no ponto de vista da sustentabilidade. “Hoje, a Estilo Verde oferece alternativas de menor impacto possível que uma pessoa poderá utilizar no dia a dia: copo reutilizável, canudo e talheres de bambu, composteira, itens de higiene pessoal, saúde e bem-estar, coletores, calcinhas absorventes, fraldas reutilizáveis e vestuário”, explica.

A reciclagem é uma das peças fundamentais para a realização do trabalho de Marina, pois contribui significativamente para a preservação do meio ambiente, bem como para a redução do resíduos gerados pelo ser humano. Para a bióloga, a reciclagem é extremamente importante, pois com ela é possível transformar um item em outro, evitando assim, o desperdício e o descarte inadequado. “A reciclagem é a solução para a redução de impacto, principalmente em relação com a extração e utilização de recursos naturais. Além disso, ela contribui positivamente com aspectos sociais da comunidade”, salienta a empresária.

Iniciativas como as de Marina contribuem para a proteção do planeta. "Está em nossas mãos, enquanto consumidores, levar ou não para casa determinados produtos e marcas. Para que isso vire rotina, é importante conhecer o que irá adquirir, saber do que e por quem foi feito e para onde vai quando descartado”, alerta.

Separar corretamente seu resíduo, dar o destino correto ao que pode ser reciclado, respeitar a natureza e cuidar do meio ambiente, são passos importantes para o desenvolvimento do ecossistema, que precisa urgentemente da nossa ajuda para sobreviver. Preservação e consciência ecológica. Faça a sua parte, a natureza já faz a dela.

AUTORA

Ana Laura Baldo

Estagiária de Jornalismo, especialista em drama, além de futura jornalista, sonha em ser atriz.
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