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03/02/2022 Sociedade

Estamos longe de cortar a raiz

Espancamento de Moïse, no Rio de Janeiro, reacende debate sobre racismo estrutural, já abordado no Papo Cabeça da revista Flash Vip

O assassinato brutal do menino Moïse Kabagambe, refugiado congolês de 24 anos que foi vítima de 30 pauladas em um quiosque na Barra da Tijuca, mostrou que a violência contra pessoas pretas não toma lugar somente nas vielas das favelas, como acontece na orla da praia de um dos bairros mais elitizados do Rio de Janeiro. E ainda, por um dos motivos mais torpes que se possa imaginar. O caso aconteceu na segunda-feira passada (24), mas ganhou repercussão nesta terça-feira (1º), com um vídeo divulgado pela Polícia Civil que mostra fortes imagens do espancamento do rapaz.

Foram 12 minutos de agressão com um pedaço de madeira. Durante a maior, Moïse já estava imobilizado no chão sem chances de defesa. Ao final, ele ainda foi amarrado e largado em uma escada, onde foi encontrado sem vida no dia seguinte. O triste episódio teve início no momento em que o jovem cobra R$ 200 de comissão por vendas na praia, que não foram pagos pelo quiosque Tropicália.

Este fato reacende a discussão sobre racismo e xenofobia no País. Quando uma pessoa preta se posiciona para cobrar o que é seu por direito, corre o risco de sofrer consequências abomináveis. Casos de racismo, quando vêm à tona em forma de denúncias, acabam, muitas vezes, sendo tachados como vitimismo e não tratados como os crimes que realmente são. 

Este assunto já foi discutido na edição 88 da revista Flash Vip. Um Papo Cabeça conduzido pelo designer gráfico Denis Cardoso, com a enfermeira Debora Borges e a psicóloga e mestre em Psicologia Social Maria Célia Malaquias, que propõe reconhecer a sociedade como racista, para então começar a podar este mal pela raiz. Denis inicia a conversa colocando o fato de que, embora componha cerca de 55% da população brasileira, a comunidade negra ainda é condicionada a papéis de pouca importância na sociedade.

Maria conta que quando a violência não é explícita, é interna. “Dentro e fora do consultório, eu continuo a me deparar com dores emocionais, angústias, tristezas, depressão e, em alguns casos, até suicídio”, revela a psicóloga, que destaca que a luta não acabou com a Abolição da Escravatura.

De volta à questão do salário, assunto que levou ao espancamento de Moïse, Denis ressalta o contraste entre a renda dos brasileiros: em média R$ 2.796,00 por mês para uma pessoa branca, enquanto uma preta recebe em torno de R$ 1.608,00. A diferença não se resume a salário, como conta Debora, que destaca a cobrança por um padrão estético no setor privado e a diferença no tratamento por parte da população no setor público. “Já passei por experiências nas quais pessoas atendidas por mim direcionavam a fala para os meus colegas, evitando conversar comigo”, relata a enfermeira. 

No caso de Moïse, um imigrante africano que trabalhava como vendedor ambulante, essa violência chegou ao limite da crueldade.

Maria ressalta sua inquietação diante do mercado de trabalho, salientando como pessoas pretas são, no geral, as últimas a serem contratadas e as primeiras a serem demitidas.

“Muitas pessoas acham que estamos reclamando, falando as mesmas coisas, que não mudamos o discurso. Primeiro, como vamos mudar a nossa fala, se a nossa realidade ainda é esta?”, questiona a psicóloga, que destaca a naturalização do racismo no Brasil.


Confira o debate do Papo Cabeça “É preciso podar pela raiz”, da edição 88 da revista Flash Vip


Ela compara a reação ao assassinato de George Floyd – homem negro sufocado até a morte por um policial branco em 2020, nos Estados Unidos – que desencadeou uma série de protestos em todo o mundo, com um caso aqui no Brasil, de uma mulher que foi imobilizada por um policial militar que pisou em seu pescoço. “O impacto deste crime parece causar menos efeito na população brasileira do que o impacto do assassinato do Floyd – sem minimizar uma ou outra agressão. Nós, sim, sabemos o significado do pé ou do joelho no pescoço de um homem negro e de uma mulher negra”, ressalta.

A psicóloga destaca que a gravidade da naturalização das violências contra a população negra provoca uma acomodação nas pessoas. Naturalização que deixa marcas irreparáveis nos corações de famílias, mas que muitas vezes são expressadas somente em números: 71% da pessoas mortas em assassinato são negras, aponta Denis.


A conversa completa sobre racismo estrutural também está disponível no nosso canal do YouTube.




Crédito Ilustração: Cristiano Siqueira | @crisvector

AUTOR

Fernando Bortoluzzi

Jornalista e explorador em busca de expansão e conexão.
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