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09/02/2022 Sociedade

É preciso lembrar a história para não repeti-la

Apologia ao nazismo feita por Monark no Flow Podcast coloca em pauta os limites da liberdade de opinião

O então apresentador do Flow Podcast, Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, declarou nesta segunda-feira (7), no programa online, que deveria existir um partido nazista reconhecido por lei. “Se o cara quiser ser um anti-judeu, eu acho que ele tinha que ter o direito de ser”, defendeu o youtuber enquanto era questionado pela deputada federal Tabata Amaral (PSB), que participava como convidada com o também deputado Kim Kataguiri (DEM).


Veja o trecho do debate clicando aqui


O legado que a Segunda Guerra Mundial deixou para o mundo inteiro é um saldo de entre 55 e 80 milhões de mortos. Entre estes, pelo menos 6 milhões de judeus, 250 mil pessoas com deficiência, 250 mil ciganos, 1,9 mil testemunhas de Jeová e milhares de homossexuais. São os números de vítimas da escalada de terror propagada pelo exército nazista alemão, iniciada em 1933, com a chegada de Adolf Hitler ao poder da Alemanha.

Inicialmente, o que viria a ser um exército, era apenas um partido político: o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, de extrema direita e direcionado por “opiniões” como o antissemitismo (ódio à população judaica), a superioridade da raça pura alemã, entre outros pensamentos que foram conquistando cada vez mais apoiadores e culminaram na instalação de campos de extermínio pela Europa e no Holocausto. Se faz pertinente recapitular este triste período da nossa história por motivos de: para a história não se repetir, ela precisa ser lembrada. 


Liberdade e responsabilidade

Após a declaração antissemita ganhar repercussão, Monark publicou um vídeo em que pede desculpas pela insensibilidade da fala e justifica que estava bêbado. O Flow Podcast, que conta com 3,6 milhões de inscritos no YouTube, perdeu patrocinadores e, ao final da tarde de ontem (8), anunciou em nota a retirada do episódio do ar, o desligamento de Monark e defendeu que “tratamos de temas sensíveis e polêmicos buscando promover conversas abertas sobre assuntos relevantes para a nossa sociedade”.

Em outra ocasião, o apresentador já havia questionado se “ter uma opinião racista é crime”. O episódio serve de base para um debate que vem ganhando cada vez mais força: em que ponto a liberdade de expressão deixa de ser espaço para opinião e passa a ser propagação de discursos de ódio? Este tema já foi abordado em reportagem da edição 74 da revista Flash Vip, intitulada “A superficialização do pensamento”.

Na reportagem, o cientista da comunicação Rodrigo Oliveira alertou que a internet possibilita hoje que receptores também sejam emissores de informação. “Ela (a web), dá voz, torna o ser visto, e não apenas a audiência. E se dá liberdade para que mais pessoas se enunciem, ela permite que mais discursos se propaguem”, afirmou o estudioso. Este é o grande problema da declaração de Monark, que assumia o papel de comunicador para o terceiro podcast mais ouvido do País e fazia uma fala que pode ser considerada apologia ao nazismo, crime previsto na Lei Federal Antirracismo, de 1989.

É justamente o que Rodrigo alerta sobre a disseminação de discursos, em que prevalece o senso comum de que tudo pode ser dito. “Liberdade de expressão não é a liberdade de expressar qualquer ideia. Opinião não quer dizer que é respeitável. Respeitável é o respeito. A liberdade deve ser usada para diminuir as diferenças, não aumentá-las”, ressaltou.

A psicóloga Maria Carolina Moesch afirmou que é positivo assumir posições ideológicas tanto na vida real quanto virtual. Porém, para ela, o extremo de todo esse pensamento é a intolerância, gerando o adoecimento da sociedade. “Alguns movimentos vêm para revelar o que temos de pior enquanto humanidade. Isso acaba exteriorizando algumas violências, como a de gênero ou contra a mulher”. No caso deste episódio do Flow Podcast, deu-se força a um discurso que já vem revelando cada vez mais simpatizantes, como mostrou a antropóloga Adriana Dias em entrevista ao “Fantástico”, que existem pelo menos 530 núcleos neonazistas no Brasil, um crescimento de 270% nos últimos três anos.

O sociólogo Cesar Camargo refletiu sobre os movimentos emergentes atualmente, com ideologias conservadoras, e apontou um retrocesso no mundo. “Estamos voltando à Idade Média, com a sociedade do castigo e da vingança. A internet acaba sendo a única válvula para rebater isso. A utopia é que todos tivessem bom senso para se expressar, mas não sei se chegaremos lá. Se pudermos criar um ambiente e desenvolver a cultura da manifestação livre, mas permeada por princípios éticos de respeito, de preservação do outro, de não destruição, aí teremos um mundo melhor”.

A Monark faltou o bom senso, a humanidade e a lembrança de que a liberdade de uma pessoa termina onde começa a do próximo. Neste caso ainda mais grave, sobre uma população que já foi alvo de um genocídio. Ele e o deputado Kim Kataguiri serão investigados pela Procuradoria Geral da República para apurar se houve ou não crimes de apologia ao nazismo, incitação à violência, injúria racial e intolerância religiosa.


*Imagem: Flow Podcast | Reprodução

AUTOR

Fernando Bortoluzzi

Jornalista e explorador em busca de expansão e conexão.
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