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18/05/2022 cultura

As novas telas do presencial

A volta das exposições culturais chapecoenses em um contexto pós-isolamento

A cultura pode ser compreendida como o que compõe os hábitos que caracterizam cada sociedade na história, seja através das crenças, leis, estudos, ética ou arte, por exemplo. Essa é a forma do ser humano expressar sua individualidade em cada grupo social, uma maneira de conectar subjetividades através da comunicação, seja pela fala, pelo texto, pelo visual, pelas expressões corporais ou outras formas.

No ano de 2020, com o isolamento social que modificou a dinâmica de diversas áreas em sociedade, a cultura também sofreu impactos, tanto para quem consome quanto para quem a produz. Para compreender as mudanças nesta área durante a pandemia, foi realizada a Pesquisa de Recepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Cultural e Criativo do Brasil, realizada entre julho e setembro de 2020, com apoio da UNESCO. Foram consultadas 2.667 pessoas de áreas como artes cênicas, música, literatura, moda e audiovisual. Até o mês de maio, 48,88% das pessoas relataram que tiveram perda total de suas rendas, o que impactou também na contratação de serviços como publicidade, banda larga ou consultoria, em que 49,16% relataram não ter contratado nenhum serviço de terceiros.


Expressão entre quatro paredes

Além de profissionais que enfrentaram a pandemia durante a sua carreira, há também quem começou seu trabalho em meio ao período de isolamento. Esse é o caso da artista chapecoense Taise Zanotto Migott, que começou a pintar seus quadros no ano de 2020, momento da chegada do novo coronavírus no Brasil. Taise, que também é estudante de Artes Visuais, destaca que, no isolamento, a internet mostrou pontos positivos e negativos para a sua atuação. "Por um lado consegui consumir a cultura de outros países, visitar museus que talvez nunca ia poder ir, assistir lives de artistas famosos e expor minhas próprias pinturas. Mas tudo era tela [do computador ou celular], ficou cansativo, começamos a sentir falta da vivência corporal, de você sair e olhar a cultura na rua", avalia.

Estar em contato com artistas e adequar obras físicas para o digital foi um grande desafio para o coordenador técnico de artes visuais do Museu de História e Arte de Chapecó, Ricardo Garlet. Em sua percepção sobre o público, por mais positivo que seja o alcance gratuito do trabalho de artistas de outros estados pelas transmissões ao vivo, Ricardo afirma que isso evidenciou a desigualdade social das populações periféricas, principalmente na falta de boas condições de conexão ou equipamentos que permitam o acesso às lives gratuitas. Questionar o que foi o isolamento para a população da periferia também se faz importante, principalmente para quem trabalhou em lugares que não era possível ser realizado de casa, como as agroindústrias, por exemplo. Para isso, Ricardo enfatiza que a arte urbana se tornou essencial para o acesso à cultura. Ao usarem a própria rua como galeria, o contato com a arte de Chapecó se fez presente no cotidiano de cada cidadão e cidadã. “Um importante projeto são os grafites no elevado, no bairro Efapi. Financiado pela prefeitura, este é um projeto de intervenção urbana que convidou artistas chapecoenses para grafitar na estrutura, incluindo obras que valorizam a cultura indígena de Chapecó”, complementa.

 

Novo presencial

Durante o isolamento, a primeira exposição online da galeria da Humana Sebo e Livraria trouxe um importante questionamento sobre a economia cultural de Chapecó. Segundo a artista visual, professora de artes e curadora das exposições da Humana, Janaína Corá, como as obras foram vendidas por preços mais acessíveis, a expectativa para a volta ao presencial é que, ao serem incentivados ao consumo cultural, tenham consciência de que a ajuda não é apenas para um artista. “Tem toda uma equipe por trás na organização de cada evento, há movimentação de renda e emprego na cidade quando as obras são expostas. É preciso que a cultura seja valorizada como outros setores da economia, porque esta é uma importante área que incentiva a educação, a sensibilidade, a liberdade de expressão e o contato humano”, analisa.

A transição do isolamento para o presencial também trouxe a valorização da cultura dos povos originários que compõem Chapecó. Em agosto de 2020, momento alto da pandemia, foram realizadas exposições de arte Kaingang do território indígena Condá, no espaço físico da Humana Livraria. Ao ter em mente que as produções artísticas são o principal sustento de 14 famílias do território, com acompanhamento do Ministério Público e da Fundação Nacional do Índio (Funai), Janaína foi autorizada a entrar em contato direto com as famílias indígenas para trazer suas obras para a livraria, realizar a venda e levar os ganhos para o território. Como um trabalho voluntário em que toda a renda foi voltada para as famílias, Janaína conta que a exposição desempenhou papel de reafirmar para o país o que é o ser chapecoense, principalmente pelas obras vendidas terem sido catalogadas digitalmente. “Como está disponível online, este é um material de consulta para o Brasil conhecer a cultura Kaingang, principalmente pelos povos indígenas ainda serem uma população marginalizada. Por isso, principalmente em ações nas escolas, este material pode ser usado para reafirmar que vivemos em uma terra onde os povos originários são os indígenas, fundamental para conhecer qual a origem de Chapecó”, destaca.

Retomar as exposições em 2022, principalmente nas aberturas, vai além da apreciação das obras para Ricardo. A relação presencial entre as pessoas foi o principal destaque na volta das exposições presenciais. É a partir dessas conexões que são feitas trocas importantes que não foram permitidas pelo ambiente online. “O convívio entre as pessoas gera diálogos, discussões, é um momento de troca e construção muito importante para nós das artes, e eu sentia muita falta disso, de estar junto das pessoas e também vivenciar as exposições que eram essenciais na minha atuação", finaliza.


Fomento local

A primeira exposição presencial em 2022 no Museu de História e Arte de Chapecó é do escultor Paulo de Siqueira. O objetivo é valorizar o artista gaúcho que atuou na década de 1970, conhecido por obras como o Desbravador. No espaço, a exposição está disponível até o dia 25 de agosto, data do aniversário do município. Além disso, há também a exposição itinerante com 12 de suas esculturas, até o dia 18 de maio na Prefeitura de Chapecó, ambas ações de visitação gratuita.

Foto: Prefeitura de Chapecó



Também está disponível no espaço do Museu, até o dia 20 de maio, a exposição com entrada gratuita “Mulheres de olhos coloridos”, primeira oportunidade de Taise expor presencialmente seu trabalho feito durante a pandemia. Ao utilizar a subjetividade artística nas pinturas, a produção tem como objetivo mostrar a beleza de mulheres para além do que os olhos podem ver. “Quis trazer as características de personalidade que tornam a pessoa bonita na perspectiva de cada um, tanto que o nome das obras mostram isso: sabedoria, ousadia, espontaneidade, delicadeza, alegria”, descreve Taise. Além do espaço do museu, é possível acompanhar seu trabalho pelo Instagram @taisezm.galeria. Além disso, por meio do edital da galeria Agostinho Duarte, na Unochapecó, em junho será feita mais uma exposição dos seus quadros.

Foto: Taise Zanotto Migott

Texto: Christopher Rodrigues Fustes Marin

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