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07/04/2021 guia cultural

Desconexo: A vida em série

WandaVision, além de abrir para experimentações mais profundas das narrativas baseadas em quadrinhos, acerta em homenagear a própria TV.

A série (ou minissérie) WandaVision, um dos primeiros originais do serviço Disney+ com material criativo da Marvel, além de abrir para experimentações mais profundas das narrativas baseadas em quadrinhos, acerta em homenagear a própria TV e nos mostra o quão indispensável se tornaram as séries televisivas para nosso entretenimento.


Com uma narrativa estranha e diferente de tudo que o Universo Cinematográfico da Marvel apresentou nos cinemas e em outras séries do mesmo universo na Netflix, WandaVision surpreendeu a audiência e trouxe em seu início estéticas televisivas que homenageiam séries norte-americanas na estrutura formal dos episódios. Num primeiro momento pareceu muito estranho acompanhar episódios com cara de sitcom e em preto e branco, característicos das décadas de 1950 e 60. Houve quem não gostou desta abordagem e esperava algo menos enrolado quanto às séries da Netflix e mais explosivo como os filmes normalmente são. Depois de entender que a proposta era a cada episódio homenagear a televisão pré-digital, se tornou um deleite ver como a história de fantasia do casal principal seria adaptada considerando referências bem próximas do óbvio.

Fora do plot da série, que vai ficando cada vez mais clara à medida que a temporada progride, pensar no momento atual da produção televisiva mundial em comparação com sua ancestral, nos coloca a pensar o quanto precisamos de narrativas seriadas e como nos projetamos nela e em suas histórias para observar o mundo atual de um ponto de vista seguro, mas reflexivo. Que estamos completamente inseridos na era de ouro das séries televisivas* não há dúvida. Olhar para a história destas produções e seus momentos é olhar para nosso passado comum e as sensações que tivemos ao acompanhar narrativas que não se resumem a uma sessão de cinema ou a uma leitura concentrada, mas um compromisso, um investimento de um tempo distribuído ao longo de semanas (ou fins de semana, no caso das maratonas).

Basta pensar em séries como Prison Break, Friends, Lost, Arquivo X, Todo mundo odeia o Chris, Chaves, Game of Thrones e tantas outras de tantos formatos e origens para já evocar com certa naturalidade o que essas narrativas representaram num período específico da nossa vida e como suas características narrativas e visuais nos levam à nostalgia com muita facilidade. Mais longe ainda, incluir as telenovelas brasileiras no rol de narrativas seriadas que nos mantiveram entretidos por um bom tempo e das quais tivemos experiências belas, alegres e tristes.

O que WandaVision fez sem muita pretensão, mas com ousadia e de uma forma extremamente preocupada com os detalhes e sensações, acaba por tabela servindo para olharmos para a história da TV e das narrativas seriadas televisuais com carinho e respeito por tudo que elas representaram a seu tempo, além de reforçar o quanto precisamos destas histórias, mais ou menos organizadas e significativas num mundo cada vez mais caótico e sem sentido.

*Segundo Brett Martin, no livro “Homens difíceis: Os bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias”, da editora Aleph.

AUTOR

Hilario Junior

Colunista convidado da FV, é professor de Comunicação e Design (Unochapecó). Graduado em Computação, Especialista em Cinema, Mestre e Doutor em Comunicação.
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